segunda-feira, agosto 09, 2010

Maldições da vida moderna

Estava fazendo o supermercado deste mês (sim, eu gosto de fazer supermercado. So what?) e costumamos (eu e minha amada) pegar primeiro os produtos de higiene pessoal. Fui lá buscar o meu shampoo de sempre (para cabelos oleosos) e não o encontrei. Olhando - a princípio, distraidamente - os rótulos de produtos semelhantes, comecei a notar uma coisa esquisita: a proverbial quantidade de shampoos para tudo quanto é tipo de cabelo. Havia aqueles para cabelos curtos. Mas também os havia para cabelos cacheados. E para cabelos loiros tingidos de amarelo (!). E para cabelos cortados na lua nova. E para cabelos compridos pintados com a mão esquerda com tintura do Casaquistão por uma cabeleireira japonesa de origem semita sem o olho direito. Ainda tinha para cabelos frisados com o produto X e tratados depois com o produto Y e desfiados com o produto Z e passados por um processo térmico de 2,15 horas (válido apenas para cabeleireiros de São Paulo, porque nos de Tatuí isso não vale, já que a composição química do ar é diferente nessas duas cidades)...

PUTAQUELOSPARIU! Já houve tempos em que shampoos eram apenas para cabelos normais, oleosos ou secos. Quem diabos inventou essa barafunda de anomalias químicas para foder com nossa saúde capilar?

Hoje, dando uma olhada de leve naquele Hoje em Dia (uma alternativa de programação matinal da TV aberta que nem é lá essas coisas, mas, ainda assim, é infinitamente preferível a Ana Maria Praga!), mais uma novidade nos novos lares paulistanos: o espaço gourmet. Algo como pegar sala, juntar com cozinha e sacada (que a reportagem pomposamente chamava de "varanda") e voilà!: está criado um novo ambiente sofisticado, acolhedor, em que dá pra fazer a comidinha com os amigos e a família descontraidamente, e bibibi, e bobobó, e o requinte do mimimi, a fineza do trululu...

Baaaaahhh! Quanto papo furado! Todo mundo sabe que quem não é rico (e isso inclui a classe média dita "alta") está com cada vez menos opções de moradia, ainda mais numa cidade como São Paulo, cujo inchaço populacional aumenta a cada ano, e onde os espaços de construção estão cada vez mais escassos, ao mesmo tempo em que os preços dos apartamentos estão subindo a níveis estratosféricos (óbvia conseqüência do aumento paralelo do número dessas construções populares de quatro cômodos exíguos)! Daí, para se justificar a construção de condomínios cada vez menores e apertados para as classes aparentemente mais favorecidas, apela-se pra essa balela do "espaço gourmet", que nada mais é do que roubar espaço interno em prol de uma pretensa sofisticação que ninguém pediu! Afinal de contas, pra que paredes? Isso é um conceito ultrapassado, volume inútil, como podem dizer esses arquitetos de fundo de quintal loucos pra emplacar conceitos escrotos de vanguarda primeiromundista. Por que não fazem então um conjugadão duma vez? É! Botem o banheiro integrado no espaço gourmet também! E sem portas! Daí, se o vatapè au sauce des apricots bahiènnes não funcionar, os convidados podem descarregar do lado da mesa de jantar mesmo, sem correr o risco de deixar os rejeitos intestinais pelo caminho!

Ou, ainda melhor: que se construam esses novos "edifícios" ao estilo de galpões: botem lá uns pré-moldados (quatro colunas cobertas com telhas Brasilit) e pronto! Teremos o mais novo conceito de espaços integrados para a classe média: quarto (2+1, porque três quartos pra valer não existem mais), sala, espaço gourmet e banheiro tudo junto, sem paredes, como os lofts (esses sim coisa de gente rica!), mas sem o charme e o mezzanino deles.

O pior foi a entrevista chamar antropólogos, sociólogos, cientistas sociais, filósofos (só faltou chamar um físico!) pra tentarem justificar urbanisticamente essa patacoada toda; chegaram a dizer que a cozinha é o espaço mais importante de uma casa! Claro! É necessário fundamentar isso muito bem em termos humanos, pois daí se dá uma aparência científica e maquiada (e, portanto, digna de respeito!) para mais essa baboseira da vida moderna, em que tudo é bonitinho, mas nada é funcional.

Isso nos leva a outras imbecilidades do mundo modernos: pra que cargas d'água agora saem todos os carros "modernos" com sensor de estacionamento? Com câmera no retrovisor? Com câmera no escapamento, no bagageiro, no compartimento do estepe, dentro do porta-luvas? Pra que tanto equipamento eletrônico pendurado no carro? Será que é porque tem cada vez mais debilóides sem senso de espaço e distância no trânsito? E quando nada dessa porcariada existia? Ninguém fazia baliza não? Ninguém estacionava? Dez anos atrás, quando não se falava tanto em GPS (outra coisa que se banalizou horrivelmente), como é que vagabundo se virava no trânsito das grandes cidades? Os postos de gasolina estão perdendo sua função romântica de servir de guia de informações sobre a cidade pra esses mapinhas googlelizados (os satélites dessa empresa nefasta daqui a pouco estão focalizando o seu rabo no banho, para gáudio dos tarados de plantão que entopem a Internet em busca de bundas). Num país em que acham bonito o Kia Soul (que mais parece uma caixa quadrada em que pisaram em cima e entortaram um dos lados) e o novo Fiat Uno (que parece um Uno antigo anabolizado ao nível de um ET), que consome SUV's fora de linha nos países de origem e carros de "luxo" com apenas uma lâmpada de ré, é no mínimo estranho esse amontoado de tralhas tecnológicas. Quero ver quando pifar a "câmera de marcha-a-ré" (e lá se irão milzinho pelo menos pra trocar um troço de que ninguém nunca precisou em mais de 100 anos de história automobilística).

E a lista segue, interminável... câmeras fotográficas que tiram foto sozinhas, instrumentos musicais que tocam sozinhos, carros que estacionam sozinhos. E virão os fogões que cozinham sozinhos, os aviões que voam sozinhos, o Orkut que funciona sozinho. E os livros que se autoescrevem sozinhos......................

Está tudo ficando besta demais. Fácil demais. Muito pra retardado. Fico com um imenso medo do futuro, pois se pensa cada vez menos, já que tudo está à mão. Pesquisa em diversas fontes, livros, academias e museus? Pra quê? Aquela merda ridícula de Wikipédia tá ali pra te informar (errado na maioria das vezes). Raciocínio? Nada disso! O Google Translator traduz tudo do trabalho que você já baixou pronto do Google Docs. Pra que manusear livros, virar páginas, ter uma bela coleção em casa, se esses iPad's insuportáveis armazenam dez zilhões de livros russos com apenas 1/2 mega?

O mundo já ruiu. Esqueceram apenas de recolher os cacos!

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