domingo, novembro 25, 2012

A catarse pela escrita (I)

Ela chegou se insinuando e o prensou contra a parede. Beijou-o profundamente e começou a enfiar uma mão por dentro da calça dele enquanto com a outra arrancava sua blusa desajeitadamente. Ele percebeu e foi ajudá-la na tarefa, quando, de repente, ela se afastou e começou a cantar aquela merda de “camaro amarelo” às gargalhadas. Perplexo, sentiu-se emurchecer imediatamente enquanto ela se afastava cantarolando agora “delícia, assim você me mata”. De repente, tudo começou a girar, a ficar preto e ele caiu.

Acordou sobressaltado, com o coração na boca, ouvindo o “camaro amarelo” misturado ao choro do seu filho que dormia no berço ao lado. Tateou desesperadamente o criado-mudo do lado da cama em busca dos óculos que caíram, no rebuscar trêmulo e nervoso de mãos sobre o móvel. “Puta que me pariu” pensou, “preciso parar com essa mania de colocar os óculos tão na ponta dessa porra de criado-mudo!”. Foi o primeiro raciocínio que conseguiu articular em seu cérebro ainda mal acordado. Percebeu depois o choro do filho no berço e pulou da cama pra acudir o guri que havia acordado com o “camaro amarelo” invadindo todo o quarto. Que catso era aquilo?

Demorou a perceber, tonto de sono, que eram os arruaceiros do andar de cima que, com os hormônios à flor da pele, típico de estudantes arrombados que não comem ninguém, resolveram se lançar ao romantismo brega do sertanejo mais escroto (e suas variantes) e fazer serenata para as galinhas das vizinhas, de quebra acordando-o e mais a seu filho. Nesses últimos tempos, revezavam-se ele e a esposa no quarto da frente pra dormir com o menino que não tinha o sono tranqüilo, justamente por causa dessas e outras barbaridades que os habitantes daquele lugarejo amaldiçoado adoravam perpetrar contra o sossego alheio. Ele tinha medo que o moleque desenvolvesse algum distúrbio do sono por conta das repetidas acordadas sofridas quando aqueles boyzinhos salafrários resolviam passar com o som nas alturas em qualquer dia da semana, em praticamente todos os horários da noite. E agora, mais isso: serenata pra vadiazinhas! Era demais! Nunca, nem mesmo nos últimos dez anos em que moraram numa cidade dez vezes maior, tiveram que aturar tanta bagunça. Não era empolgação de fim de semana; era toda santa noite. E, durante o dia, os carros de som “oficiais” apregoando o comércio local, numa primitivíssima campanha publicitária de esfrangalhar os nervos dos mais pacientes. Uma loucura, um hospício, uma jaula de maníacos!

Custou a fazer o filho pegar no sono novamente. Só então atinou olhar para o rádio-relógio... 2h:45min da matina! Levou-o para a mãe no quarto dos fundos e lançou-lhe um olhar significativo, correspondido com um aceno de cabeça: “vai ter que ser assim, se a gente quiser dormir. Faça.”

Desvairou-se e pegou sua espingarda, carregando-a com aquelas munições que abrem rombos quando saem pelo outro lado das pobre vítimas. Desceu a escada aos trambolhões, virou à esquerda e topou com o malfadado grupinho grunhindo o lixo sertanejo, arrevesando garrafas de cerveja no chão e rindo de o mundo inteiro escutar. Não pensou, nem refletiu. Aproximou-se rapidamente apontando a arma pro violeiro. Não houve tempo para nada. Estourou-lhe a cabeça com o tiro certeiro, bem na lateral esquerda, que fez tudo voar pelos ares, olhos, dentes, pele, couro cabeludo, tudo isso se espalhando em diferentes direções, enquanto o corpo rodopiava esguichando sangue pelo imenso buraco aberto e o violão, jogado longe, fazia um barulho ignóbil de madeira ordinária ferindo o asfalto.

Imediatamente se fez um torpor de silêncio. Os amiguinhos em volta, atônitos, com as embriaguezes subitamente dissipadas, salpicados de sangue, sem saber o que fazer, ato contínuo começaram a tremer e a chorar convulsivamente, enquanto as galinhas gritavam histericamente, batendo as patas no chão.

– Será possível que eu vou ter que cortar outro filho da puta no meio pra ter um pouco de sossego? – berrou ele mais alto, enquanto luzes começavam a acender em torno e os barulhos de janela se abrindo revelavam rostos assustados. Um cachorro começou a latir sabe-se lá onde.

Pegou uma das galinhas e deu-lhe com o cano quente da espingarda nas dobras das duas pernas, fazendo-a desancar e cair pesadamente de joelhos no chão. Deu um imenso grito e lágrimas grossas correram de seus olhos apavorados. Ele fincou o cano na têmpora da galinha e continuou a vociferar alucinado, vermelho, com espuma nos cantos da boca e o olhos injetados:

– Calaboca! Calaboca filhadaputaiada do caralho senão eu estraçalho com essa daqui também! Quer dizer que o pião não pode ter uma noite de sossego? Sempre tem que ter bagunça? Sempre tem que ter barulho? Sempre tem que ter esse vozerio toda noite, que quando não é em cima é aqui embaixo? Caralho! CARALHO! Trabalho que nem um cavalo! Mereço descanso! Vocês, seus merdas, só sabem parasitar, cantar, beber, enfiar droga cu adentro! Filhos dumas putas! Filhos duma putas de barranco! Se lá no meio do lamaçal de onde vocês saíram é costume fazer serenata na frente do estábulo pra conquistar a vaca que vocês vão enrabar no meio da plantação de milho, na civilização a coisa é diferente! Tem regra! Tem regra, porra! PORRA!

Tirava o cano da fronte da galinha e batia com a espingarda no chão pra depois apontá-lo novamente pra ela. Na última vez que fez isso, descontrolou-se e meteu com toda a força o cano na testa da infeliz, que caiu desmaiada no chão, perto da imensa poça de sangue, tecidos chamuscados e fragmentos de ossos que se formou do rosto do violeiro deformado pela carga. As outras galinhas e os arruaceiros se haviam arrebanhado num grupo compacto e tremiam feito vara verde. Não demorou pra que se notasse um fedor, inicialmente leve, depois acre e nauseabundo: todos tinham, literalmente, cagado de medo!

– Levanta, filhadaputaiada! Levanta! Corre! Vão embora! Chega disso! Quero dormir! Quero dormir.

Estava enorme! Parecia um urso! Aos gritos repetidos de “quero dormir! Quero dormir!”, brandia a espingarda para o pobre grupo amedrontado que se pôs a fugir atabalhoadamente, aos tropeções, chorando e gritando, uns passando por cima dos outros, arruaceiros e galinhas, num tropear confuso cujo rumor só foi sumir três ou quatro quadras abaixo.

Ele respirava furiosamente, bufando. Olhou o cadáver espatifado caído numa posição indescritível e a galinha desacordada ao lado, já inundada na altura dos cabelos pelo sangue nojento, uma grande mancha roxa na testa. Olhou em volta: todos estavam paralisados nas janelas, do jeito que apareceram. Furiosamente mandou-os todos tomarem no cu e subiu pra casa. Foi para o quarto dos fundos: a esposa chorava, com o filho nos braços. Abraçou-os ambos e disse com a voz baixa e tranqüila: “calma, calma... tudo vai ficar bem agora!”. Beijou-os e foi guardar a espingarda dentro de sua caixa de madeira laqueada. Tomou o guri dormindo nos braços, levou-o de volta para o quarto da frente, depô-lo no berço e deitou-se a seguir. Dormiu como uma pedra.

No dia seguinte, acordou de repente, atirou-se para fora da cama e foi à janela olhar para a rua. O chão estava limpo. Parecia que nada tinha acontecido. O silêncio à sua volta era total. Havia apenas o movimento da manhã e mesmo o ruído deste parecia não entrar no quarto. Ainda espiava a rua de olhos fixos quando a esposa entrou no quarto e perguntou com naturalidade, como sempre, como tinha sido a noite. Ele voltou-se, primeiro observou o filho que dormia na mesma posição em que tinha sido colocado no berço, sua respiração erguendo e abaixando suavemente a coberta. Depois a fitou por alguns segundos e, sem responder, abraçou-a e chorou em seu ombro como criança durante longo tempo.

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