quinta-feira, setembro 03, 2015

As mulheres que passaram pela minha vida (parte I)

Acho difícil haver homens que não tenham tido suas histórias com as mulheres, desde cedinho, seja aquela vontadinha de ficar perto duma amiguinha ou aquela paixão arrebatadora (destrutiva ou não). Não estou incluindo nisso, claro, as excrescências como relações abusivas, sexualmente distorcidas à la Lua de Fel, "assassinativas" ou perturbadas, que pertencem apenas às folhas policiais, às searas forenses ou às clínicas de psicanálise/psiquiatria. Vai daí que num dia desses de ócio durante as férias do trabalho resolvi passar em revista os enroscos da minha vida, num puro contraste à vida matrimonial feliz de que desfruto desde 2006.

Hoje, neste dia em que comemoro 41 anos, resolvi falar um pouco sobre minha vida amorosa, que foi apenas fazer sentido depois que me casei, há quase dez anos, pois antes tudo foi atropelo, inexperiência e desolação!

Comigo, tudo começou com a Daniela, acho que lá pela terceira série. Me lembro como se fosse hoje. A Dani era branquinha com as faces rosadas, uns olhos esverdeados levemente repuxados, boca pequena e uns cabelos curtinhos, lisos e negros. Nessas épocas ninguém sente paixão ou o que quer que seja do tipo, mas uma coisinha infantil, uma vontadezinha de olhar pra certa pessoa mais do que pra outras, já que todos somos curiosos por natureza desde o início. E eu sentia vontade de passar mais tempo olhando a Dani do que qualquer outra pessoa. Não passou disso ou, talvez, não tenha passado também de uma agoniazinha de ficar justamente apenas nisso: criança também não sofre por amor, pô! Sequer conhece a sensação porque o cérebro ainda não cai nessas ciladas do destino.

Na quarta série o negócio foi mais sério com a Catarina. Eu meio que ficava mais ansioso ao lado dela e já a conhecia desde a terceira série, mas o foco da vez era a Dani e não lhe prestei muita atenção, mesmo ela sendo portadora duns olhões azuis de causar arrepios. Foi só depois que senti um troço por ela a ponto de lhe deixar no meio do caderno um papelzinho em que escrevi: "Catarina, eu te amo. Carlos". Ainda assinei, tu vê que coisa? É claro que isso ia dar merda e deu: levei um esporro público épico duma tia velha cujo parentesco com a Catarina eu nunca entendi, mas foda-se. Era uma tia velha vestida como um sargentão, de saiona até o tornozelo, aquelas blusas de manga comprida fechadas até os punhos e birote nos cabelos grisalhos. Mas me deu uma comida de rabo que fiquei paralisado de espanto, "que não era pra eu ficar mandando essas coisas pra Catarina" e não sei mais o quê. Se meus pais estivessem junto talvez tivessem ido pra cima dela em minha defesa, mas não me recordo de detalhes, o que me leva a concluir que realmente ocorreu na hora da saída, quando eu os estava esperando virem me buscar e essa velha me pegou de emboscada. Houve um tempo em que cheguei a pensar que essa velha fosse daquelas crentes histéricas alucinadas pra quem o demônio está em todo lugar, mas, raciocinando melhor, não fazia sentido porque estudávamos numa escola católica e essa crentalhada não se mistura. Talvez fosse só mesmo uma daquelas ratas de sacristia (que também vêem o diabo em todo lugar) vestida à moda religiosa do início dos anos 80…

Ainda na quarta série houve depois as Danis (Danielas apareceram aos montes na minha vida), a Daniela mesmo e a Danielle, duas amiguinhas nojentinhas, antipáticas e entojadas. Já deu pra ver que a quarta série foi um aprendizado nessas coisas de reações de pruridos de paixonite perto de garotinha, né? Eu tinha certo apreço pelas duas, mas elas só faziam caretas quando eu me aproximava (ou qualquer outro moleque), naquela vibe bem Luluzinha mesmo, bem "menino x menina". Minha mãe era "amiga" da mãe da Daniela e uma vez fui à casa dela e, mesmo fora do ambiente da escola, ela nem me olhava na cara. Pior que a Dani era a mais feinha, com uns vincos de velha na cara (ela era um palitinho de magrela), diferente da Danielle que era uma graça. Mas os olhos verdões da Daniela realmente me atraíam. Enfim, também isso não deu em nada, com nenhuma das duas.

Quando deu a quinta-série, mudei duma escola católica para outra. Aí a coisa foi divertida. Tinha a Gabriela, que vieram fofocar que era a fim de mim. E, de fato, assim que me falaram isso, olhei pra ela e ela estava me sorrindo de sua carteira. Como mulher é precoce pra essas coisas, né? Seja como for, a Gabi era, infelizmente, feinha e não me agradei da perspectiva (sim, na quinta série eu já estava meio já sabendo o que era gostar duma menininha), de modo que não dei um passo na direção de tentar qualquer coisa. Mas eu gostava da Gisele. A Gisele era gatinha e parecia ir com a minha cara. Foda é que moleque fica anos-luz atrás de menina no quesito namoro em termos de iniciativa ou fazer a coisa certa e, de novo infelizmente, eu não fiz a coisa certa. Aliás, não fiz foi porra nenhuma e a Gisele desencanou, por motivos óbvios e corretos. Deve ter preferido alguém mais pró-ativo!

Na sexta-série passou-se uma coisa estranha. Eu e meu amigo Marco morávamos no mesmo prédio e sempre voltávamos juntos, seja de carona com meus pais, seja com a mãe do Marco (o pai dele já era falecido há muito tempo). A saída da escola era sempre tumultuada por causa do trânsito no pátio interno e ficávamos um tempo considerável no carro até conseguirmos ganhar a rua. Durante esse tempo em que estávamos dentro do carro, ficavam do lado de fora duas meninas parecidas (achei que eram irmãs, mas depois fiquei sabendo que não) meio que nos acompanhando disfarçadamente. O carro andava um pouco, elas emparelhavam. Andava mais um pouco, emparelhavam com a gente de novo, sempre pulando, brincando e dando umas olhadas pra nós. Certa vez uma delas (a mais bonita) realmente tirou pra nos encarar por longo tempo em lugar de brincar com a amiga. Nunca entendi se o alvo era eu o Marco, mas nunca passou disso. Víamos as duas no intervalo mas, cabaços que éramos, nunca tomamos iniciativa nenhuma (como sempre!). Fiquei sabendo depois que essa mais bonita era irmã do namorado de uma amiga antiga da minha irmã (entendeu?). Como minha irmã é meio de más entranhas, por um motivo qualquer ela deixou de falar com essa amiga e o namorado (hoje marido, gente com quem eu até vim a ter certo contato por causa da amizade com minha irmã) e nunca mais fiquei sabendo dessa guria (e muito menos da coleguinha dela!).

Na oitava série veio a primeira paixão pra valer, a Ana Carolina. Essa me tirou dos eixos e me fez voar, de tanto que só pensava nela. Pena que não me dava a menor bola e nunca deu chance. Tentei até ficar meio amigo do irmão dela, um gorducho cujo nome omito (porque mais de uma referência já dá pra fazer link sem nem precisar de sobrenomes, que eu já não coloco por motivos imensamente óbvios) pra ver se rolava uma aproximação, mas não dava: era um desses moleques riquinhos mimados que só falava merda e na época eu já tinha uma certa distinção intelectual que naturalmente me afastava de quem não tinha nada que prestasse a dizer. A paixonite pela Ana foi a primeira que me acompanhou por longo tempo, a bem dizer o ano todo que durou a oitava série e me fez sofrer porque me encantavam aqueles cabelões loiros dela, aquelas sardas no rosto e aquele jeitinho doce. Mas ser metida a riquinha estragou essa sensação com o tempo e a situação financeira da minha família na época já me botava alguns patamares abaixo do (suposto) patamar dela. Numa época em que essas coisas eram levadas em consideração (não mudou muito!), não tinha como dar certo. Fiquei sabendo depois que ela era metida a baladeirinha, que era figurinha carimbada na cadeira de barbeiro do Café com Cu (minha maneira carinhosa de chamar o Café Cancun, balada de pleiba metido do Shopping Galleria à qual nunca tive acesso por total falta de grana mesmo, assim como jamais tive acesso a Palicari, Fonte São Paulo e por aí vai), etc. e tal. Não ia rolar mesmo. E foi bom. Trombei com ela nas redes sociais anos depois e, puta merda, que baranga ela se tornou! Virou adEvogada"dotôra", dessas formadas nessas arapucas que abundam por aí e vendem papel sujo pra incauto(a) que se mune imediatamente do título de "dotô(ra)" e fica por aí batendo cabeça à porta das instituições correcionais em busca dum líder de facção criminosa pra chamar de seu. Que seja feliz!

Ainda no oitava série teve uma Ada que não sei se encanou comigo de verdade ou por zoação. A Ada era daquelas da turma do fundão, talvez repetente, desenvolvida, com um corpão já de mulher mas uma cara horrível e desarmoniosa de favelada barraquenta e reles. Andava com Felipe (um cosplay de James Dean derretido que chegava na escola de Monza (!!!!!)), Beiçola (um fulano que chegava de moto (!!!!!!!!) e que tinha umas beiças que pareciam bifes!) e mais uns patifes tranqueiras degenerados que me desprezavam por eu ser estudioso, sentar sempre na frente e terminar o ano aprovado já no terceiro bimestre (a maioria desses que vinham com bullying pra cima de mim ou morreu ou virou "dotô" de porta de cadeia. Obrigado, Lei do Retorno/Karma!), o que me faz concluir que a encanação dela era mesmo zoação pra me desestabilizar. Eu sentia uma espécie de atração-repulsão pela Ada por motivos óbvios: me atraia o corpão dela, mas me repugnava seu jeito vulgar, vicioso, escroto, meio criminoso (que, aliás, era o jeito de todos os demais do fundão… os que eu já citei e mais BoiCapiMonte-MorCavaleiroCebolaZuloAmaury"Maria Machadão", o Fuinha de Bigode e sua irmã - a maçaneta da escola, à qual todos homenageavam cantando-lhe, quando passava rebolando, a clássica "Sílvia" - e, depois, no primeiro colegial, o Lua, o Zé Bota e tantos outros). No início eu ficava puto com as investidas zoadas dela, mas depois aprendi que com esse tipo de delinqüente a melhor arma é a ignorada, e não é que funcionou? Ufa! A Ada largou do meu pé e seus amiguinhos torpes também, até porque todos eram dados apenas (e graças a Deus) à zoação psicológica: tirando-lhes o oxigênio (minha atenção), o fogo deles se apagou.

Por enquanto essa é a crônica amorosa de minha vida no Ensino Fundamental, resumidamente. Um dia escrevo a continuação, do primeiro colegial em diante!