Eu sempre tive muita curiosidade a respeito dos judeus ultraortodoxos, aquele povo super exclusivista e super excluidor, que acha que, num universo de 7 bilhões de humanos viventes, D'us (que é o mesmo Deus cristão e o Allah dos muçulmanos) o escolheu para ser seu protegido, enquanto todos os outros não passam de goyim.
Enfim... quando apareceu no Jostaflix um seriado sobre eles ("Shtisel". Procuraí que tô com preguiça de botar link), achei o máximo e assisti a toda a série rapidão. Infelizmente, isso me trouxe mais dúvidas do que esclarecimentos. Vai daí que, fuçando no VocêNoTubo, encontrei um rabino metido a engraçadão (na verdade, chato bagarai) tentando dissecar algumas partes do seriado, mostrando o que era correto, o que era exagero e o que era falso. Novamente, infelizmente ele não foi lá muito bem sucedido na tarefa porque além do vídeo ser chatíssimo (cheio de tiradas "engraçadonas #sqn" que até o tiozão do pavê teria vergonha de protagonizar) o povo nos comentários só fazia pergunta imbecil sobre como ultraortodoxos namoram e frivolidades do gênero. Resolvi então expôr algumas de minhas dúvidas sinceras que surgiram após eu assistir o seriado mas, infelizmente (pela terceira vez!) elas ficaram no vácuo (se bem que praticamente todas as outras perguntas imbecis ficaram no vácuo. Ele deve ter achado as minhas tão imbecis quanto mas... fazer o quê, né?).
Seja como for, não quero que minhas perguntas caiam no esquecimento, então resolvi reproduzi-las aqui. Se um dia elas terão resposta, não sei: não estou nem um pouco a fim de aprender hebraico pra me debruçar sobre 2000 anos de tratados dos mais diversos estudiosos tentando entender o Sêfer Torá. Vamos lá!
"1) No episódio 8 da segunda temporada, Yosa'le está fazendo uma entrevista com o diretor da yeshiva para tentar uma vaga. O diretor então faz a seguinte pergunta: 'diga-me por que, se um homem rouba de seu amigo e modifica o objeto, em vez de ser punido, o objeto se torna dele?'. Como assim? Quer dizer, por exemplo, que é lícito a um judeu, de acordo com o Talmud, roubar o carro azul do seu amigo, pintá-lo de vermelho e passar a dizer que é seu?
2) No quarto episódio da primeira temporada, Zvi Arye está estudando Tosfos, tratado Eruvin. Por que o judaísmo tem tantos tratados escritos ao longo dos séculos por sábios tentando interpretar as palavras divinas? Elas não têm uma interpretação única? São necessárias realmente tantas regras para se construir uma jangada? Isso não é mais interpretação absurdamente ao pé da letra de seres humanos do que inspiração divina propriamente dita, que deveria ser simples e direta?
3) Quais as restrições que os ultraortodoxos (é o que eles são, não? Não vejo por que usar outra expressão) fazem aos chabadistas? Em outras palavras, por que ultraortodoxos não gostam do movimento fundado pelo Menachem Mendel Schneerson, rebbe de Lubavitch? Seria esse movimento (perdão pela comparação descabida) alguma coisa semelhante à renovação carismática da Igreja Católica no sentido de introduzir "coisas mais moderninhas" nas celebrações dos cultos judaicos?
4) Aliás, movimento chassídico e haredi são a mesma coisa?
5) O seriado quis me passar a impressão que os judeus haredi têm uma certa reserva ao sionismo de Theodor Herzl. Não é a volta para a ocupação da Palestina que esse movimento prega? Não deveria ser simpático a todos os judeus?
6) Akiva Shtisel, em certo episódio, faz menção ao golem. Diz-se que Yehuda Loew ben Bezalel, o Maharal de Praga, teria construído um seguindo a "receita" contida no Sêfer Yetzirah, com a finalidade de proteger o gueto de Yosefov dos expurgos contra as comunidades judaicas da localidade, que eram comuns naquela época. O que há de verdade nisso além das lendas? É verdade que o Sêfer Yetzirah tem uma fórmula para conjurar esse ser? Se sim, só judeus praticantes podem fazê-lo? Por que D'us permite isso?"
Pronto! Era só isso! Custava responder, pô?