terça-feira, janeiro 04, 2022

I

Robertão já tinha mudado de lado da estrada umas quatro vezes só naqueles primeiros quinze minutos de sua caminhada matinal. Estava se mostrando cada vez mais furada sua teoria de que se saísse bem cedo não daria de cara com ninguém. Isso até funcionou durante um tempo em casa; nas férias em que estava, entretanto, era quase impossível. No meio daquele povo campestre, acostumado a perambular por entre as roças dos dois lados da estrada quando nem o sol havia ainda decidido a se mostrar por aquelas bandas, era pedir demais um pouco de paz em relação a não ter que se preocupar em emparelhar com quem quer que fosse. Primeiro, porque realmente não gostava disso; ademais, ainda estava-se no meio da melige, conforme os sábios da época convencionaram chamar a Média Limpeza Geral com que os Crianças Vermelhas tentaram eugenizar a humanidade no melhor arcaico estilo Huxley, por meio de mais uma arma biológica vinda da Ásia (sempre de lá. Dostoiévski estava certo no final das contas?). Logo, não convinha ter gente por perto porque saía sem máscara de proteção naquele horário, um dos poucos nos quais pensava ter um pouco mais de liberdade. Já meio com o pé atrás com gente no geral desde sempre, a necessidade de distanciamento havia tornado Robertão ainda mais neurótico com essa coisa de proximidade de outros seres humanos à sua volta. Por isso, bufava de raiva a cada peão esguedelhado ou ciclista vindo em sua direção no mesmo lado da rodovia.

Aliás, ciclistas se tornaram uma praga em Aramicy, a cidade onde ficava com a família nas férias, terra natal da esposa. De uns cinco anos pra cá mais ou menos, a cidade agrária e com aprazíveis cenários típicos do sul do país havia sido descoberta por essa corja e agora tocava agüentá-los junto com seus irmãos motoqueiros, a versão mais nojenta do ciclista, porque sobre motores inescapavelmente barulhentos e passando em hordas de dez, até vinte de uma vez só, com suas Gotechs nos capacetes e suas jaquetas de clubes, numa ridícula e deprimente emulação daqueles párias dos anos sessenta nos Estados Unidos que, voltando estragados de corpo e (principalmente) alma do Vietnã e não conseguindo se readaptar à socidade que os havia mandado para o inferno, saíam por aí pela tal Rota 66 sem destino e formando, sem darem por isso, legiões de intelectualóides imbecis movidos a Cannabis que romantizavam essa falta de rumo e de ocupação na vida como um sinal de revolta e contestação.

Pensando nessas coisas enquanto caminhava, Robertão viu ao longe mais uma ciclista vindo em sua direção. Ele sempre caminhava do lado em que o sentido era contrário ao que os carros trafegavam, pois se algum perdesse o controle, perceberia a tempo de pular para o lado e escapar de um hipotético atropelamento; caso andasse no acostamento de mesmo sentido, poderia ser colhido pelas costas e morrer sem ver o que o pegou. Mais uma teoria furada dentre as várias que populavam seu cérebro nervoso e dado a divagações, mas levada muito a sério. Naquele dia ele não tinha acordado particularmente bem e sua costumeira surda e interna revolta contra tudo e todos estava justamente no paroxismo. Quando notou que teria que mais uma vez mudar de lado na estrada, disse em voz alta: "bicicleteira de meeeeeerda! Por que essa feladumaputa não some do mundo?".

Ato contínuo, olhou pra trás a ver se não vinha nenhum veículo do outro lado pra poder atravessar a pista. Uma fila de carros de turistas vinha naquele espaçamento de comboio que o impediria de cruzá-la por alguns instantes, obrigando-o a passar ao lado da ciclista, que vinha bem pelo meio do acostamento. A raiva foi tanta que sentiu nesse momento algo forte que o tonteou e escureceu sua vista. "Saco, ainda vou ter um AVC sendo escroto desse jeito! Robertão, você não está tendo uma atitude positiva perante a vida, Robertão! Robertão, pára com isso, Robertão!".

Diminuiu o passo porque a cabeça doeu e se afastou pra deixar a ciclista passar. Estava a uns cinqüenta metros dele. Nesse momento, cresceu um caminhão de hortaliças desgovernado por trás dela, atingindo-a em cheio e fazendo-a voar em pedaços na direção de Robertão, que se sentiu claramente agarrado pelo braço esquerdo e sendo puxado brutalmente para o valado que margeava o acostamento, caindo pesadamente  sobre a terra irregular.

Estendido no chão, sentindo uma grande dor nas têmporas, ainda conseguiu ver por entre as turvações da visão o caminhão caindo na vala após frear por metros. Ouviu o horrível chiado da freada, sentiu o cheiro dos pneus queimando no asfalto e estremeceu sob o imenso ruído do baú se despedaçando e despejando sua carga por toda a parte. Voltando um pouco a cabeça, viu à sua frente a bicicleta convertida num inacreditável montículo de metal retorcido, no meio do qual se via uma perna arrancada.

Perdeu os sentidos.

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