O grande problema de Júlio Ribeiro, brasileiro filho de gringo, foi seu único livro polêmico, "A carne". É uma história irritante de tão ruim e irreal, mais irreal do que os devaneios onírico-macabros de Edgar A. Poe, por exemplo.
O tal padre Sena Freitas (sobre o qual desconheço detalhes de vida e obra, a não ser pelo fato de que foi sua nêmesis o resenhado nesta postagem) foi temeroso em sua protérvia a respeito do livro, confundindo-o com seu autor e fazendo-lhe uma crítica tão empolada quanto desastrada. Isso levantou a fúria de Ribeiro ao ponto de ser o sacerdote português desancado violenta e impiedosamente por semanas a fio numa série de artigos que publicou. Não havia necessidade disso por parte do presbítero; bastava-lhe desmontar a história d'"A carne"!
Tudo no livro é errado: o extremo pedantismo, a narrativa entrecortada por longuíssimas e imensamente enfadonhas descrições botânico-ornitológico-geográfico-político-sociais dos lugares que os protagonistas visitaram, o psicológico deles e, principalmente, a falsidade gritante do perfil de Lenita, mulher que por isso jamais teria posição "honrada" alguma, por mais grana que tivesse, numa sociedade como a brasileira da segunda metade do século XIX e cujo extenso cabedal de conhecimentos não encontra paralelo sequer hoje, nos tempos hodiernos, entre acadêmicas e letradas em geral (ainda lamentavelmente poucas!).
Nas décadas de 50 e 60, quando no Brasil ainda vicejava um moralismo crasso, antiquado, pulha e essencialmente de fachada (bem... acho que ainda hoje é assim, né?), "A carne" era, junto com "O capital" e tudo de certos autores franceses (como Zola - já falo a respeito dele!), livro proibidíssimo nas bibliotecas e nas livrarias. Ficava escondido nas prateleiras mais afastadas das primeiras e causava um olhar de reprovação quando procurado nas segundas. O clima sexual exagerado que permeia suas páginas era um adicional de ruindade e fantasiosidade numa história já estrututalmente falha. Hoje, em que sexo se banalizou (embora ainda tabu, mas muito menos do que naquele tempo), esse fator é quase irrelevante, a menos que o enxerguemos sob um contexto histórico, na verdade interessante apenas aos literatos e estudiosos do tema.
Querendo dar sua contribuição ao naturalismo primorosamente iniciado na França por Zola em toda sua grande obra cíclica "Os Rougon-Macquart - História Natural e Social de uma família sob o segundo império", Júlio Ribeiro veio com seu livrinho que, sem tocar no que era realmente relevante para o movimento, antes causa pena do que admiração. Enquanto Zola usava os desvarios do ser humano e o pintava como monstros sob pernas, defeituosos, cheios de problemas psíquicos, dispostos a tudo perder para dar vazão a satisfações efêmeras (no caso dos ricos) ou a tudo tentar para ascender (no caso dos pobres) e descrevia como estes comportamentos (individuais ou grupais) influenciavam a sociedade como um todo, entremeando as conseqüências por todas as classes e dissertando brilhantemente a respeito, deixando pontas soltas que se reuniriam em obras posteriores (resultando nos aproximadamente 20 volumes deste gigantesco estudo social, ultrapassado em quantidade - embora não em qualidade - apenas por Balzac), tudo que Ribeiro fez foi descrever, em poucas páginas, como uma ninfomaníaca ultra-ilustrada fez para satisfazer, ainda que em parte, seu vício em sexo e como disso resultou o estúpido suicídio de seu amante (outra personagem com comportamento quase tão irreal quanto o de Lenita), jogando ao mesmo tempo para o leitor algumas observações muito rasas sobre casamento, amor-livre e escandalização dum povo que, proporcionalmente, ainda se encontrava na pré-história em termos de desenvolvimento sócio-econômico, comparando-se com a meca da cultura que era a Paris dos anos mil e oitocentos.
Pensando que, se botasse uns termos técnicos de Ciências, descrevesse algumas doenças causadas por plantas venenosas e sob as quais sucumbiram alguns personagens muito secundários do livro, fizesse uma lenga-lenga árida sobre certas geografias paulistas, metesse o pau (por pouco que fosse) na escravidão e em algumas estruturas sociais da bananalândia e ligasse todo esse papo furado por um vernáculo cheio de palavras de nicho, seu livro estaria apto a figurar no panteão de obras-primas da literatura naturalista, Júlio Ribeiro infelizmente incorreu numa sucessão de equívocos que torna "A carne" um pseudo-livro indigno de se altear como tal. Na tentativa de produzir boas obras naturalistas brazucas, Aluísio de Azevedo foi bem mais competente, muito embora naturalismo tupiniquim seja como rock tupiniquim: parece que vai, mas não vai.
Essa é mais uma análise rápida e desinteressada de um desses autores nacionais espécie de "one hit wonder", embora isso não seja propriamente um elogio! Dá pra me estender mais sobre o tema, mas agora estou com preguiça. Fica pra outra oportunidade, neste mesmo post (se tive saco, pois há postagens anteriores pedindo por uma conclusão mais decente - e sei lá se vou fazer isso!).