quinta-feira, março 13, 2025

A falácia da meritocracia

Depois que o país quebrou e entrou numa era permanente de polarização sócio-político-econômica, volta às bocas da extrema-direita a conversa de "meritocracia", que, pela definição formal, é uma

"forma de administração cujos cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência."

Entretanto, quando os maluquinhos da extrema-direita se apossam de algo, eles o distorcem segundo sua visão corrompida do mundo, resultando que a "meritocracia", segundo eles, passa a ser o que você pode vir a ter/ser se trabalhar como um louco (isto é, ou sendo um "autônomo" sem qualquer proteção trabalhista garantida por lei ou sendo um "funcionário" submetido a um autêntico regime de quase-escravidão).

Infelizmente, o que a vida real mostra é que muitos autônomos viram noites trabalhando e conseguem, no máximo, vender o almoço pra pagar a janta. Conheço VÁRIOS assim. E o mais engraçado é que TODOS, sem exceção, abraçaram as ideologias de extrema direita e realmente se acham próximos dos que detêm o poder, sendo, em verdade, meros capachos dos ricaços que os mantêm por perto para servirem aos seus propósitos, concedendo, para isso, uma proximidade fictícia que os ilude. Gente que se diz "amiga" de fulano X, Y ou Z (todos ricaços), recebem destes esmolas (coisas velhas, usadas, inúteis), algumas oportunidades espaçadas de trabalho (que não renderão grandes coisas no final) e crêem que de fato um dia sairão da merda cultivando essas "amizades" e essas relações espúrias de troca.

Por outro lado, também conheço empregados que lambem o saco do patrão e/ou da corporação em que trabalham, esquecendo que, quando chegar a hora (e ela sempre chega!), serão sumariamente despedidos/substituídos sem que qualquer explicação lhes seja dada. Trabalham em horários esquisitos, precisam de biscates/expedientes extras para equilibrar as contas e vivem numa corda-bamba mental, naquele limiar entre a sanidade e o descontrole que tira do sério mesmo os mais centrados. Como os autônomos, dentre estes funcionários também conheço os adeptos das pautas de extrema-direita, incensando essa "meritocracia" pela qual eles supostamente ascenderiam mas que, curiosamente, sempre os mantém por baixo, impedidos que são pela dura realidade de que quem está acima não os deixará subir de forma honesta, por mais supostamente competentes que sejam; perseveram, porém, e seguem achando que seus talentos de predestinados, diferentões e escolhidos (seja lá por quem for!) ainda os farão triunfar. Sim, eles pensam que são diferentes de todos e têm maior capacidade de se darem bem, mesmo que andem de carro velho e morem em apartamentos apertados ("mas é meu!") indefinidamente.

O interessante da coisa é que estes autônomos/empregados acabam por mimetizar o comportamento dos que os usam como capachos, incorporando seus discursos, os quais, já sendo inaceitáveis e atrozes nas vozes de quem tem o poder, se tornam risíveis, ridículos e caricatos na voz de gente que mal tem onde cair morta. O sujeito chora em rede social que vai ser despejado (pois está devendo três meses de aluguel numa cidade cara em que insiste em morar!) e implora por ajuda (pra não conseguir comer mais do que miojo), mas se acha o fodástico que um dia vai imperar sobre todos e deixar seu nome na história (spoiler: não vai!) porque domina uma profissão de nicho e se considera um eleito por isso; o outro trabalha numa função de base já quase em idade de se aposentar, mas arrota superioridade por pensar que sua função é fundamental no mundo (spoiler: não é!). Um terceiro tem surtos e mais surtos psicóticos durante o exercício de sua estafante atividade profissional liberal, que mal lhe rende pra pagar as contas básicas! E assim segue a fila de meritocratas, que tiveram suas cabeças cheias da falácia de que trabalhar incansavelmente para suprir as necessidades dos ricos os tornará, por sua vez, também ricos. Enquanto isso, os filhos destes ricaços vão subindo na hierarquia de suas empresas familiares (ou mesmo em outras), herdam impérios sem saber como vão mantê-los e se tornam os chefes em detrimento dessas "sumidades" que se achavam predispostas a um sucesso que jamais conhecerão, porque jamais passarão do que realmente são: capachos de rico.

Em Matemática (o único reino em que a generalização é buscada e desejável), basta um único contra-exemplo para colocar abaixo toda uma teoria. Esses casos citados (e que com certeza não são únicos) já são o suficiente pra fazer cair por terra essa conversa de que meritocracia funciona e que, se você não está se beneficiando dela, é porque não está se esforçando o suficiente, como adoram dizer os coaches (o estrato social abaixo dos pedófilos, dos molestadores e dos serial killers).

Quando cheguei nessa cidade, havia, numa espécie de favelinha, um barraquinho formado por um monte de cacos de porcaria caindo aos pedaços num terreno de tamanho regular. Mas era um barraquinho daqueles miseráveis mesmo, coisa quase de gente sem teto. Em 14 anos que moro aqui, eu vi esse barraquinho de cacarecos evoluir para uma casa de madeira. Capenga, é verdade, mas com direito até a varandinha e uma garagenzinha (com carro!) do lado. Eu não sei se quem mora lá é a mesma família do barraquinho destronchado original e nem sei se é dela essa construção, mas o fato do barraquinho evoluir para uma moradia com um mínimo de dignidade é o que pode realmente ser chamado de meritocracia. Quem quer que esteja morando/seja dono de lá, lutou e fez acontecer. Volte à definição no início desta postagem: "(...) cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência.". Alguém com competência conseguiu guardar dinheiro com seu trabalho e modificar (conquistar melhorias para mudar) radicalmente sua vida. A evolução (conquista!) é a marca da meritocracia. Quem (supostamente) é o melhor em algo e não mostra evolução na existência não tem sequer o direito de arrotar meritocracia como um dogma a ser aceito sem discussões dentro da ideologia doente da extrema-direita. E outra, hein? (nunca é demais ressaltar): você irá sempre até um certo ponto, se ligando a essa gente. JAMAIS eles te deixarão subir mais, a partir de um certo patamar. Você SEMPRE ficará na dependência dos ricaços! Portanto, pra não ficar mais feio do que já está, PARE de falar em meritocracia se você for um autônomo fodido ou um empregado!

Fica, por fim, uma reflexão: todos sabemos que as ideologias de (extrema-)direita privilegiam ricos. Quem desses 50% que deram vitória à porcaria que desgovernou o país por quatro anos realmente se enquadra nessa categoria (excluindo besteiras como pautas de costumes e religiosas, que são mero efeito colateral)?

UPDATE de 19/03/2025: este artigo é do Leonardo Sakamoto, um cara odiado pela extrema-direita, que o acusa de ter feito curso de terrorista com não sei quem, curso de comunismo não sei onde, aprendido a ser esquerdista na putaquelospariu do raio que os partam... não importa quem seja, o que ele seja ou instrumento de que poder o estejam arvorando. É um artigo lúcido e que mostra de modo ainda mais eloqüente o quão ridículos, deploráveis, risíveis e caricatos os paladinos do capital alheio (a.k.a. pobres de direita) são.