sábado, agosto 01, 2026

Desgraças infinitas

"- Mas, sinhô dotô, cumé que vassuncê se diz mais afortunado? Eu num passo dum caboco da roça. Sô duro, inguinorante, só lido com plantação, terra e boi. Tudo que eu queria era uma cama decente pra mim e pra mim velha, enquanto sinhô dorme numa cama macia! Daí sinhô vem me dizê que é um desvalido ingual a mim?

Na sua "inguinorança", seu Bonifa achava impossível que seu dotô Clodoaldo pudesse se equivaler a ele em termos de infelicidade. Seu Bonifa tinha como meta de conquista uma cama, do mesmo modo a sinhá Vitória do Graciliano... pobre desgraçado! Mal sabia o pobre apedeuta que possuía o maior dos tesouros: o obscurantismo de sua inteligência. Porque seu dotô Clodoaldo era estudado, mas remediado. Culto mas sem acesso às fontes. Interessado, mas tolhido pelo ambiente mesquinho em que fora criado. Afeito ao saber, mas incapaz de encontrar alguém com quem ao menos compartilhar o sonho de estar face a face com a biblioteca do reino! Quanto mais se sobe, mais dura, violenta e humilhante é a queda. E seu dotô Clodoaldo, o remediado, o que não foi herdeiro, mas que também não era do peonismo do seu Bonifa, chorava intimamente o desgosto de seus altos sonhos jamais atingidos. A única diferença entre seu Bonifa e ele era que os sonhos deste último tiham ficado restritos ao seu próprio conceito particular de uma felicidade primitiva, enquanto os grandes feitos para os quais parecia talhado seu Clodoaldo, o dotô ilustre, eram reservados aos que só tinham dinheiro. Grande coisa, no final, o dinheiro! Não trazia refinamento, cultura e nem modos a ninguém. E, no entanto, como o desejava, como o queria, como se sentia tentado a praticar crimes para obtê-lo!

Olhou para seu Bonifa com olhos turvos. Sentenciou:

- Seu Bonifa, sou idêntico a mecê. Nossas poucas felicidades nos separaram, mas nossas muitas desgraças nos uniram. A única diferença são os nomes que damos a elas."

E saiu arrastando os pés, enquanto seu Bonifa quedava-se olhando-o se afastar, as costas curvas, os pés fazendo um ruído seco de chapa lixada."

MEIRELLES, Eusébio Villar, "O dono dela sou eu", 1a. edição. Editora Cordolium, 1972