quarta-feira, agosto 13, 2008

A Arte Imita a Vida

Comediazinha de vagabundo

Dramatis Personae
Micaela Sfat – dondoquinha metida com tecnologia
Petronius Willcox – pífio empreendedor terceiromundista

Cenário: sala de um apartamento de classe média com pretensões a ser chique. Sofás de dois e três lugares. Ao centro, uma mesinha com bibelôs baratos e um porta-retrato em cuja base se lê “Lembrança de Porto Velho – Rondônia”. Em frente ao maior sofá, um rack de aparelhos eletro-eletrônicos. Uma televisão de plasma pendurada na parede.

Ato único

Petronius Willcox está sentado no braço do sofá menor, ouvindo Micaela injuriá-lo já há um bom quarto de hora. Ouve de cabeça baixa em atitude resignada, enquanto ela lhe atira impiedades com um sorrisinho sarcástico de dona da verdade, o que sempre a afastou de todos os homens, menos de Petronius, seu namorado.

Micaela: Está me ouvindo, Petronius? Você só sabe falar! Fala, fala, fala e não diz coisa com coisa! Como fui me meter com um nada como você?

Petronius: Micaela, me deixa!

Micaela: (dá uma risada cacarejada) Olha só o coitadinho! “Me deixa, me deixa”, ora o bundão! Quem é que vai trabalhar na Big Apple pra sustentar o seu luxinho inútil? Eu sou a boa da casa, seu trouxa!

Petronius: Micaela, vai descansar! Tu tá no stress. Você vive no stress! Por que não tira umas férias?

Micaela: Férias uma ova! Antes ficar sozinha! Bem que me avisaram. Tinha mais é que te largar, seu saco de bofetadas!

Petronius: (levanta a cabeça e começa a encarar Micaela, a princípio com perplexidade, depois com ódio. Ergue a voz) Micaela, isso vindo de você tem graça. Não sou eu que tem uma avó que se entrega aos amores clandestinos! (Levanta-se) Sim, aos amores clandestinos! Tá no seu DNA essa sua histeria insuportável!

Micaela: (pára no meio da sala e se volta, desvairada) O que você tá dizendo, seu merda?

Petronius: Você ouviu, Micaela! É isso! Amores clandestinos! Andei com a tua avó, a D. Galina Iusúpova Zarnítsina!

Micaela fica parada no meio da sala, olhando fixamente para Petronius. Abre a boca e não articula nada.

Petronius: Comi muito a senhora sua avó, Micaela! Sabia que era fraco negócio largar a avó pra ficar com a louca da neta! Vai te catar, sua mala! (sai batendo as portas).

Micaela, sem se voltar, aos poucos vai caindo desabada sobre o tapete. Petronius volta com uma mochila de viagem na mão. Pára ao lado de Micaela desmaiada por alguns instantes e finalmente sai, largando a porta aberta. A morte desce, toma Micaela nos braços e sobe novamente. Cai o pano. Fim do ato. Fim da peça.

Um comentário:

F.Szorki disse...

huahuahauhauahuahauah

MUITO BOM !!! SENSACIONAL !!!

Cara, essa peça tem uma cara de 'Campinas'...

Não que faltem empresas grandes e puteiros geriátricos em outras cidades, mas que tem, tem !