A Internet é a fonte menos digna de confiança que existe. A todo momento vemos e-mail's, hoaxes, boatos de todos os tipos... são bem conhecidos os textos daquele cara da Herbalife que se deu mal (o tal engenheiro), a foto da menina fantasma do corredor vazio (um dos mais escrotos de todos)... quem não se lembra daqueles irritantes e-mail's da menina que acordou com os rins removidos depois de uma noite de baladas com um cara que mal conhecia e que lhe aplicou o golpe do tráfico de órgãos (amplamente usado no filme "Turistas", excelente filme trash)? Aliás, no site E-farsas é possível ver uma verdadeira biblioteca de sandices que a inclusão digital permitiu que nascesse.
Pois é... agora circula mais um por aí (e que recebi do meu amigo Claudio Henrique Picolo) a respeito de uma absurda campanha movida por um meio de comunicação de um país de língua portuguesa. Óbvio que já deve ter andado o Brasil todo esta mensagem com o nome final trocado, com a profissão de quem a escreveu trocada também... nem sei também se essa campanha manda cartas, como se vê na mensagem (interessante também é notar que a data - quinta, 23 de julho de 2008, como recebi, no "original", na verdade caiu numa quarta-feira, eheheh!)... de qualquer modo, apesar das personalizações/adulterações que tiram toda a confiabilidade da origem, certamente são preservadas a essência das idéias e a veracidade das constatações que contém.
Seja quem for que escreveu essa mensagem, merece os parabéns pela lucidez, coerência e indignação, o que demonstra que para cada 1.000.000 de brasileiros imbecilizados pela mídia, pelas caras e bocas dos endeusados atorezinhos de segunda linha e pelo glamour de uma festinha hipócrita que reverte sempre em benefício de eminências pardas, existe ao menos 1 criatura que consegue enxergar um pouco além da alienação geral de uma nação falida, a eterna nação do futuro há pelo menos 50 anos (pequenos erros de português foram corrigidos).
"Quinta, 23 de julho de 2008.
Querido Didi,
Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de muitas crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de ter gostado do lápis e das etiquetas com meu nome para colar nas correspondências).
Achei que as cartas não deveriam sem endereçadas a mim. Agora, novamente, você me escreve preocupado por eu não ter atendido às suas solicitações. Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar tudo e te escrever uma resposta.
Não foi por 'algum' motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada por você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua campanha altruísta (se eu quisesse, poderia escrever umas dez páginas sobre esses motivos). Você diz, em sua última carta que, enquanto eu a estivesse lendo, uma criança estaria perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de investimentos em sua formação.
Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu conheço muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com muitas pessoas mas comigo não. Eu não sou ministra da educação, não ordeno e nem priorizo as despesas das escolas e nem posso obrigar o filho do vizinho a freqüentar as salas de aula. A minha parte eu já venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a trabalhar na roça para ajudar meus pais no sustento da minha família. Trabalhei muito e, te garanto, trabalho não mata ninguém. Muito pelo contrário, faz bem! Estudei na escola da zona rural, fiz supletivo, estudei à distância e muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma micro empresária.
Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do nosso suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais que o povo brasileiro precisa. Os impostos são muito altos! Sem falar dos impostos embutidos em cada alimento, em cada produto ou serviço que preciso comprar para o sustento e sobrevivência da minha família.
Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola pública, através dos impostos, e na escola particular, mensalmente, porque a escola pública não atende com o ensino de qualidade que, acredito, meus dois filhos merecem. Não acho louvável recorrer à sociedade para resolver um problema que nem deveria existir pelo volume de dinheiro arrecadado em nome da educação e de tantos outros problemas sociais.
O que está acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa dinheirama toda não têm a educação como prioridade; pois a educação tira a subserviência e esse fato, por si só não interessa aos políticos no poder. Por isso, o dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando fora ou aplicando muito mal. Para você ter uma idéia, na minha cidade, cada alimentação de um presidiário custa para os cofres públicos R$ 3,82 (três reais e oitenta e dois centavos) enquanto que a merenda de uma criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte centavos)! O governo precisa rever suas prioridades, você não concorda? Você pode ajudar a mudar isso! Não acha?
Você diz em sua carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de matemática. Concordo com você. É por isso que sua carta não deveria ser endereçada à minha pessoa. Deveria se endereçada ao presidente da república. Ele é 'o cara'. Ele tem a chave do cofre e a vontade política para aplicar os recursos. Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o dinheiro lá para que ele faça o que for necessário para melhorar a qualidade de vida das pessoas do país, sem nenhum tipo de distinção ou discriminação. Mas, infelizmente, não é o que acontece...
No último parágrafo da sua carta, mais uma vez, você joga a responsabilidade para cima de mim dizendo que as crianças precisam da 'minha' doação, que a 'minha' doação faz toda a diferença. Lamento discordar de você, Didi. Com o valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu posso comprar 12 quilos de arroz para alimentar minha família por um mês ou posso comprar pão para o café da manhã por 10 dias.
Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00 eu não vou doar. Minha doação mensal já é muito grande. Se você não sabe, eu faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho. Isso significa que o governo leva mais de um terço de tudo que eu recebo e posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor aplicada na qualidade de vida da minha família.
Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo que meus filhos querem ou precisam? Meu filho de 12 anos quer praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de vida. Você acha isso justo? Acredito que não. Você é um homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não colaborar com sua campanha pela educação brasileira. (grifo meu: nisso eu acho que o autor da mensagem foi infeliz: tênis é esporte de playboyzinho, de elite... seria mais interessante que ele tivesse escrito: 'praticar um esporte')
Outra coisa Didi, mande uma carta para o presidente pedindo para ele selecionar melhor os ministros e professores das escolas públicas. Só escolher quem, de fato, tem vocação para ser ministro e para o ensino. Melhorar os salários desses profissionais também funciona para que eles tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação. Peça para ele também fazer escolas de horário integral, escolas em que as crianças possam além de ler, escrever e fazer contas possa desenvolver dons artísticos, esportivos e habilidades profissionais. Dinheiro para isso tem sim! Diga para ele priorizar a educação e utilizar melhor os recursos.
Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial da Unicef para Crianças Brasileiras e eu vou me despedindo assinando... (Fulana de Tal) - Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari.
P.S.: Não me mande outra carta pedindo dinheiro. Se você mandar, serei obrigada a ser mal-educada: vou rasgá-la antes de abrir.
P.S. 2: Aos otários que doaram para (campanha - nome eliminado). Fiquem sabendo, a (nome da empresa que coordena essa campanha - nome eliminado) entrega todo o dinheiro arrecadado à UNICEF e recebem um recibo do valor para dedução do seu imposto de renda. Para vocês a (nome da empresa que coordena essa campanha - nome eliminado) anuncia: essa doação não poderá ser deduzida do seu imposto de renda, porque é ela quem o faz.
P.S. 3: E O DINHEIRO DA CPMF QUE PAGAMOS DURANTE 11(ONZE) ANOS? MELHOROU ALGUMA COISA NA EDUCAÇÃO E NA SAÚDE DURANTE ESSES ANOS?"
Apenas duas considerações:
1) Se a empresa deduz isso ou não do imposto de renda, é problema dela. O melhor é, simplesmente, não doar. Quer ajudar? Doe para entidades pequenas, vistorie você mesmo para onde o dinheiro vai... se você realmente tem disponibilidade financeira, faça você mesmo um novo galpão, uma nova sala, um novo laboratório de informática... sem esperar uma plaquinha no seu nome ou um desconto polpudo no imposto de renda!! "De que serve uma boa ação de que se tire alarde e vanglória?" (apud "O Crime do Padre Amaro", Eça de Queirós).
2) Isso pode, a princípio, parecer um textozinho indignado da turminha do "Cansei". É... pode até ser! Mas, mesmo assim, é muito interessante este ponto de vista: pagamos muitos e exagerados impostos que deveriam reverter em nosso auxílio, e aí? Cadê as benfeitorias pelas quais largamos um enorme percentual de nossas rendas? Cadê hospital público de boa qualidade, como no Canadá? Por que, por exemplo, tenho que pagar imposto pela saúde e torrar depois uma fortuna em médico particular porque nos pronto-socorros públicos eu fico duas horas e meia esperando uma consulta meia-boca de menos de cinco minutos que não me adianta de nada? É o eterno problema: é independente de governos a incompetência! Até porque quem "governa" não é a turma posta lá pelo voto...
Um comentário:
Comentário anônimo é tão covarde quanto quem o posta. Foda-se você!
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