Sempre achei extremamente ridículo o estereótipo do capiau, do caipira, do matuto, do semi-selvagem da roça, aquele cara desconhecedor de quaisquer normas sociais elementares, que se acua, que se agrava pela mínima coisa, que mal sabe falar e que, tirando o árduo trabalho do campo, não sabe fazer mais nada e nem tem intelecto pra absorver o mínimo conceito abstrato, capaz de se perder em qualquer lugar com mais de dois quarteirões e que, de certo modo, é a versão do sul/sudeste do nordestino caricaturizado no maravilhoso O homem que virou suco, um dos pouquíssimos filmes nacionais que prestam.
Se é certo que havia gente assim e que até hoje, esquisitamente, ainda há quem se encaixe nesse padrão de "homem do campo", é igualmente certo que atualmente semelhante rascunho se tornou defasado, anacrônico e inexato por não ser mais a maioria. As lides presentes do campo exigem o conhecimento da terra e de como ela se comporta face esse tempo louco que, de longe, não é mais aquela seqüência certinha de estações d'outrora. Plantar se tornou um processo ativamente dependente de um certo grau de ciência e é impossível levá-lo a cabo como se fazia antes, que era só sair jogando semente em covas feitas pelo carro de boi ou até mesmo pelo agricultor puxando seu arado e depois sentar a bunda na cadeira de balanço da varanda da taperinha de madeira e esperar tudo crescer com tal vigor a ponto de saírem matinhos até onde eles não foram plantados. Estou falando de uma agricultura familiar de certo nível que apresenta exigências inexistentes até há algum tempo e que, portanto, também tem como exigência ser exercida por gente com algum miolo. Não sou da área em absoluto, mas em conversas com colegas de trabalho que são da Agronomia (e eu acho interessante esse assunto!), percebi que existe uma complexidade muito grande na interação entre as inúmeras variáveis que compõem hoje a atividade agrária. Não é mais coisa para peões grotescos, mas pra um homem do campo esclarecido, a par da Ciência da Terra, que usa Internet naturalmente e que busca constante aperfeiçoamento tanto pessoal quanto profissional.
Por isso mesmo, esse programa dominical matutino da TV Aparecida ostentar um capiau extremamente estereotipado é de uma bobagem sem limites. Até mesmo o tipo "moderninho" clássico do cinturão largo, calça justa e chapelão à moda country dos gringos é meio besta, mas ainda assim muito melhor do que um sujeito fazendo papel do limítrofe desenxabido, tosco, descomposto, esfarrapado, meio abobalhado, inocente (pra não dizer outra coisa), pulando pra lá e pra cá como se isso fosse engraçado. Tá na hora de dar uma modernizada nisso, gente! E não se trata de uma causa de "politicamente correto" não (que eu quero mais é que se foda!): é um caso de demérito contra os tipos nacionais, já bastante mal vistos lá fora. Chegou o tempo de parar de exportar estereótipos imbecis contra o brasileiro: as Ritas Baianas, os capiaus à la aquele-cara-do-cinema-cujo-nome-eu-sempre-me-esqueço, os Macunaímas e etc.