sábado, outubro 25, 2014

Reminiscências de uma juventude transgressora

Eu sempre fui muito adepto das leituras transgressoras, pra dizer um mínimo. Nesse sentido, a revista Mad, que praticamente moldou meu jeito de ser (ao menos o meu "eu interior") foi um guia, nos áureos tempos em que era comandada pelo grande Otacílio d'Assunção Barros (até por volta de 1992 ou 1993, não sei bem... o que sei é que foi ele sair que a revista ficou um lixo. Aliás, nem sei se ainda é publicada).

Entretanto, muito pior que a Mad no sentido "transgressão" era a Chiclete com Banana, editada pela Circo Sampa, um verdadeiro tapa na cara de tudo quanto fosse moralismo careta. De fato, seu conteúdo era brutal, pesado, erótico, ácido, ia direto na ferida e era, principalmente divertido.

Me caiu apenas UMA edição dessa revista nas mãos (embora já tivesse folheado várias outras, nunca comprei nenhuma), a edição 24 de 1990 ou 1991 (infelizmente, acho que não a tenho mais... se ainda tiver, deve estar perdida no meio da bagunça do que resta meu na minha casa lá em Campinas). De todas as matérias contidas lá, a que me chamou mais a atenção e marcou foi a mini-HQ "O carrasco da Moóca", do desenhista André Toral, a tal ponto que praticamente decorei todo o seu texto. Como simplesmente não se encontra essa HQ na Internet (ou seja, ninguém teve o bom coração de escanear essa maravilhosa história da realidade do submundo da grande capital paulista e guardá-la para a posteridade... e olhe que essa posteridade está precisando muito duma dose dessa realidade na veia!), então tomo a liberdade de reproduzir abaixo a integralidade do texto, ao menos de como lembro dele. Pode haver uma pequena variação entre o que está aqui e a história original. É um modo de prestar tributo a este desenhista/roteirista, para que seu trabalho não se perca. Espero não ter problemas com direitos autorais!

O CARRASCO DA MOÓCA (TEXTO INTEGRAL - ou quase!)

Quadrinho 1: “Meu nome é Celso Garcia, como a avenida, 100kg, 100cm de braço, leão da boate ‘Mi Love’ na Boca de São Paulo.”

Quadrinho 2: “Mas também sou conhecido como ‘Cigano Malvado’, (***) ou qualquer outro xaveco do Telecatch. É disso que eu gosto. De fazer o cara mau.”

Quadrinho 3: “Essa gostosa segurando a placa é a ‘Sheila’. Diz que é ‘modelo’. Na verdade, é a Maria José de Indaiatuba, ex-putana do ‘Mi Love’ que eu botei lá em casa. Bem que o Michel me avisou da cagada(+) que eu ia fazer!”

Quadrinho 4: “Um dia, minha barriga enrolou e eu saí mais cedo do treino. Chegando em casa escutei uns gemidos. Será que a Sheila tava tocando uma sirica ou...?”

Quadrinho 5: “Dei a volta pelo basculante da cozinha e escutei. Voz de macho. Caralho.”

Quadrinho 6: “Dali eu via tudo. Via aquela putana montada no ‘Prof. Cardã’, um bonitão que faz de bonzinho no Telecatch. Ela tirava a camisa dele como tirava a minha, eu já imaginava o que ia acontecer depois.”

Quadrinho 7:’Uma vez putana, sempre putana’ dizia meu velho pai, que Deus o tenha. E os dois ali, metendo direto. A Sheila quando ficava animada ninguém segura.”

Quadrinho 8: “Malandro que é malando não reclama, sai de fininho. Se eu virasse corno conhecido meu ibope lá na academia ia ficar mais baixo que o cu da cobra. Primeiro a carreira. Depois eu cuido desses dois.”

Quadrinho 9: “Fui comer uma coxinha e voltei mais tarde. Ela veio toda ‘já voltou, meu amor?’ e eu ali puto. Putana. Comi o cu dela e fui dormir cedo.”

Quadrinho 10: “Na semana seguinte fomos fazer uma apresentação em Uberlândia. Eu tava escalado pra perder a primeira luta adivinha pra quem? Prof. Cardã!”

Quadrinho 11: “Cara, ele nunca ia esquecer daquela luta! Comecei metendo um socão na cara dele. Deve ter perdido uns dois dentes pelo menos.”

Quadrinho 12: “O cara não estava entendendo nada. Devia ganhar e estava apanhando. E apanhando pra caralho!"

Quadrinho 13: "E eu lá, dedo no olho, soco no estômago, voadora, tudo pra valer.”

Quadrinho 14: “Fim de jogo. O Cardã agüentou dois minutos. Pensei que fosse durar menos. O cara saiu carregado. Ia precisar de uns dois carretel de linha pra costurar tudo. Minha mão doía de tanto dar soco.”

Quadrinho 15: “Nosso empresário Pierre Sedã tentava explicar pro público o que tinha acontecido. O cara é um artista!” (balão de fala do Sedã neste quadrinho: “É isso aí! Lutador vem despreparado e apanha mesmo! Isso deve mostrar que o negócio aqui é pra valer!”)

Quadrinho 16: “Depois dessa virei o ‘carrasco da Moóca’, o pior, o vilão mais requisitado."

Quadrinho 17: "O Cardã nunca mais vi. Dizem que virou barbeiro no shopping Lapa. A Sheila também levou a dela, mas continua lá em casa."

Notas:

(***): não há meio de eu me lembrar do outro apelido do Celso! Se alguém se lembrar, me diga!

(+): o grifo no "cagada" é meu. Parece que eu tô vendo o Michel enfatizar a palavra quando reprovou a ida de Sheila pra casa do Celso e passei a ler sempre o "cagada" com ênfase (e, de fato, levar puta pra casa é a pior das cagadas. Concordo plenamente com o pai do Celso!).