Lembram-se de que eu disse, na última postagem, que havia um lance macabro a respeito do qual eu escreveria? Pois bem... esse lance se resolveu (não da maneira ideal, mas da que se apresentou viável) e achei melhor descartar a postagem raivosa que já estava engatilhada para o caso de o pior acontecer (o que só não ocorreu por causa de muita, mas de MUITA insistência minha e mais de 80 e-mails trocados em dois meses corridos com todas as instâncias "competentes" que se tornaram responsáveis involuntárias pela minha imensa alegria ou minha horrível tristeza). Assim mesmo, esta postagem está relacionada a isso.
É amplamente sabido que, numa sociedade bem constituída, há que se respeitar os valores individuais, ainda que não sejam compreendidos pelos demais. Não discorrerei mais a respeito porque isso não é um blog de Psicologia ou qualquer coisa semelhante. Sobre o que eu quero falar é das minhas coisas pois, afinal, é pra isso que estamos aqui, right?
Fui um guri que cresceu com um MSX Expert da Gradiente e depois um MSX2 HitBit HB-F1XDmk2 da Sony como primeiros computadores pessoais em casa, ainda na segunda metade da década de 80, quando esta plataforma ainda estava no auge. Ambos, comprados novos com grande esforço de meus pais (e depois completados com vários periféricos obtidos com igual esforço(1)), foram os micros que moldaram todas as variáveis do que viria a ser meu caráter profissional e pelos quais desenvolvi uma paixão toda especial não apenas pelos mundos da Informática e das Ciências (Exatas e Engenharias) que eles poderiam eventualmente representar, mas também pelas suas origens nipônicas, com as quais sempre me identifiquei, muito mais do que com as raízes tupiniquins que me deram existência.
Embora seja certo que, antes, eu tive uma formação prévia em informática desenvolvida entre 1984 e 1986 nos Apple ][e (ou seus clones) da Microcamp e, mais tarde (em 1992), eu tenha abandonado minha paixão indignamente(3) por um Amiga 500, o fato é que grande parte do meu desenvolvimento intelectual na área de Exatas se deu com o auxílio de um MSX. Nunca tive um Apple (que poderia ser a escolha natural, já que iniciei com ele) pois na época (ainda que fossem dois anos antes) isso era proibitivo. Mesmo outras máquinas que me atraíram (como os icônicos CP-500) ou poderiam entrar na minha vida (derivadas do ZX Spectrum, espécie de concorrente europeu do MSX representado no Brasil pela linha TK), não as tive. Amigos de minha faixa de idade e que tinham mais ou menos a mesma condição financeira difícil hoje se divertem colecionando todas essas máquinas que naquele tempo eles não podiam ter(2). Eu não. Preferi manter minha "lealdade antiga" ao MSX.
E por que isso? Por que essa "lealdade"?
Uma característica marcante de minha personalidade é segurar profundamente dentro da alma e do coração tudo aquilo que me fez bem numa época em que, em vez de brincar, sair pra rua e me matar como criança "normal" fazia, eu preferia ficar em casa lendo, estudando e, depois, mexendo com meu Expert e explorando suas possibilidades. Não digo que apenas isso me fizesse feliz; muitas outras coisas ocorridas em minha infância e primeira juventude (músicas, seriados de TV, lugares e pessoas) se enraizaram de tal modo em mim que acabaram por criar um arcabouço enorme não apenas de recordações, mas de verdadeiros "mundos interiores" que me amparavam de modo muito eficiente nos momentos de crise (que todos temos, por mais felizes que sejamos). Uma espécie de mecanismo de auto-defesa num mundo que me considerava "esquisito"(4).
No caso específico do MSX, eu adorava sair da escola sabendo que meu micrinho estaria lá, pronto pra ser usado. Adorava copiar listagens de programas de revistas e livros, alterá-los, ver o que acontecia, aprender... depois, jogar, me divertir e ir dormir sonhando com o que lia/via nas revistas (nacionais e estrangeiras). Meu gosto principal foi pelos jogos da Konami, melhor produtora de
software da época para a plataforma (não me estenderei sobre
ela porque
Internet tá aí pra você pesquisar a respeito). Meu "fornecedor" era o MSX J&A (MSX Jogos & Aplicativos), vulgo "Marcão" (que
recentemente soube que faleceu de câncer... que Deus o tenha!). Eu ia
muito à casa dele (primeiro ele morou perto do Liceu; depois, lá pros
lados do Jardim Pacaembu) e comprava fitas e mais fitas de jogos dos
mais
diversos e que fizeram minha felicidade por muito tempo com o MSX, junto
com os livros da editora Aleph (comandada pelo também finado e polêmico
Pierluigi Piazzi).
Sabia que existiam fitas, cartuchos e disquetes originais japoneses, via-os em
revistas importadas (e passava muita vontade de tê-los) mas me resignava
com fitas/disquetes comprados do Marcão. A diversão era, de certo modo,
incompleta porque sempre dei muita importância não apenas para conteúdo, mas também para a "forma", por assim dizer.
Cabe aqui uma observação importante: tudo, mas TUDO neste triste país relacionado a MSX era pirata, devido a uma série de fatores a respeito dos quais também não me estenderei. Fuce aí na Internet sobre "lei de reserva de mercado" que tu acha. Não sei como foi a coisa em termos de hardware nas altas esferas (na Gradiente e na Sharp), mas em termos de software (tirando um ou outro aplicativo nacional feito por abnegados com tempo livre ou profissionais pagos - vide os cartuchos "educacionais" da Gradiente produzidos sob assessoria de um certo Renato M. Sabatini da Unicamp), TUDO foi pirateadíssimo. Todas as piratohouses localizadas principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro se limitavam a pegar jogos originais de MSX conseguidos sabe-se lá como e copiá-los "profissionalmente" à exaustão em fitas e disquetes, já que cartucho era outro nível e estes ficaram a cargo de Gradiente e Sharp, as empresas "oficiais" da plataforma no Brasil. O interessante é que os piratões mais abastados eram bem sofisticados, com fitas muito bem produzidas (caixa, rótulos, instruções, etc.) e abundavam os "clubes" (quem não se lembra do MISC?) de vendas de software, com direito a catálogos, listas dos mais vendidos, etc. Ao mesmo tempo, diversas publicações "especializadas" surgiram ou as já existentes passaram a publicar artigos sobre MSX e, assim, revistas como MSX Micro, Micro Sistemas, CPU MSX e outras passaram a fazer parte da minha rotina, assim como as maravilhosas MSX Magazine japonesas, nas quais meu pai gastou uma fortuna, não sem reclamar horrores dizendo que não entendia por que me interessavam aquelas revistas que eu não podia ler (hoje eu posso!), todas compradas também do Marcão, que as trazia da Liberdade.
Naquela longínqua década de 80, dentre tudo aquilo que comprava do Marcão, travei conhecimento com a tal MegaRAM, troço genuinamente brazuca que consistia num banco de 256 KB de RAM ao qual se carregavam jogos de alta capacidade (não necessariamente qualidade!) a partir de disquete. Eram uma alternativa aos jogos MegaROM
originais japoneses, tão inalcançáveis quanto desejáveis.
Clássicos como Gradius II, Penguim Adventure, Knightmare II e outros
(Konami ou não) me fascinavam pela qualidade gráfica e sonora. Repito:
não é porque esses jogos eram maiores que a qualidade era
necessariamente boa. Teve muita, mas MUITA tranqueira lançada nesse
formato, numa verdadeira mostra de incompetência por parte de empresas
como a Nihon Telenet (com seu Valis - The Fantasm Soldier todo torto e praticamente injogável de tão ruim e o tal de Final Zone,
idêntica nulidade) e outras menos cotadas. O fato é que se eu sonhava
em ter jogos comuns originais, com os MegaROM esse desejo chegou ao
paroxismo e vê-los nas MSX Magazine atiçava-o a ponto de eu não
conseguir dormir pensando em como consegui-los. Sabe aquele papo de
quando "nada nunca está bom"? Eu tinha um MSX, mas queria um japonês
(isso ao menos eu tive!); eu tinha software pra me divertir, mas
queria os originais, com caixas, manuais e o que mais houvesse. Ficava
meio com uma impressão de coisa gambiarrada, feita nas coxas, enquanto
lá no primeiro mundo todo mundo tinha acesso aos filés! Nunca,
entretanto, pedi nada a meus pais pois sabia do esforço que já tinha
sido pra eles darem tudo isso pra mim.
Com relação ao hardware, pouquíssimos afortunados (e eu posso me
contar entre eles) tiveram acesso às maravilhas que eram os MSX
originais japoneses. Fabricados por Sony, Panasonic, Sanyo, Toshiba,
Casio e outras gigantes nipônicas, eles eram um colírio para os olhos e
um desespero para nós do terceiro mundo, que queríamos colocar nossas
mãos cheias de dedos sobre esses aparelhos que conhecíamos apenas pelas
fotos nas MSX Magazine da vida e que aportavam por aqui por meio das
mais absurdas operações de "importabando" que se poderia imaginar,
principalmente o MSX2, jamais lançado oficialmente na bananalândia e
tornado possível apenas pela imensa e inata capacidade brazuca de gambiarrar tudo. O MSX2 que tive foi conseguido pelo Marcão J&A lá por 1989 ou 1990 num desses "importabandeios" cujos detalhes nunca conheci (já deve ter dado pra perceber o quão assíduo eu era enquanto cliente do Marcão, né? Ele depois se tornou um amigo legal. Uma pena que tenha falecido já...).
Enfim... cresci e, com certo remorso, abandonei essa "computação juvenil" que tanto me fazia bem. Houve então um longuíssimo hiato de quase 30 anos, durante o qual tratei de cuidar da minha vida, estudar, conseguir um emprego, casar, ter filhos, cuidar deles e da esposa e me estabilizar profissionalmente. Foi aí que o MSX ressurgiu em minha vida em 2019 por meio de um Panasonic Turbo R FS-A1GT conseguido graças a uma ocasião das mais raras:
Figura 1: foto do meu Panasonic Turbo R FS-A1GT em meu escritório. Está 100% funcional (depois de recuperado de algumas falhas eletrônicas por profissionais talentosos e competentes), 99% completo em termos de conteúdo (caixa, isopores, manuais, etc. Isso será alvo de outra postagem!) e numa condição de novo como se tivesse sido recém-adquirido: externamente todo higienizado, limpo e siliconado em suas partes plásticas, com correia nova para o drive e detalhes reproduzidos expressa e unicamente para ele, como o "obi" vermelho/prateado na parte superior e a plaquinha de PVC transparente (ambos rigorosíssimamente idênticos aos raríssimos originais aos quais tive acesso e cujas reproduções ficaram a cargo de um dos profissionais gráficos mais renomados do país), além de um logotipo Panasonic metalizado original de fábrica aplicado sobre a serigrafia quase apagada do original (conseguido no eBay). Um trabalho meticuloso e dispendioso pra deixar essa jóia suprema da plataforma MSX impecável como nenhuma outra no Brasil e como pouquíssimas no mundo, não tenho a menor modéstia de afirmar!
Eu já conhecia esse sucessor do MSX2+ na versão anterior ao GT, o modelo FS-A1ST, pois quando parei de colecionar a MSX Magazine (mais ou menos na época desta edição, em outubro de 1990) o Turbo R estava bombando no Japão e a revista não falava de outra coisa. Tornou-se imediatamente meu novo sonho de consumo (até então povoado por um MSX2+... o XV era - e é! - divino de lindo), mesmo comigo já olhando com carinho pro Amiga, que também estava começando a fazer parte das conversas com amigos por aqui. Claro está que, naquele tempo, seria algo absolutamente impensável ter um em casa, tanto pelas dificuldades de se "importabandear" um quanto pelo próprio custo que sairia essa brincadeira...
Conseguir esse "topo de linha" da plataforma de modo inesperado não apenas reavivou minha paixão pelo MSX como me propiciou uma sensação de "vitória pessoal" depois de tanto tempo. Só quem tem uma ligação verdadeira com uma plataforma querida (na verdade, com qualquer coisa de que se goste) sabe o quão bom é pra alma ter nas mãos algo almejado e desejado há tanto tempo. Foi apenas uma questão de tempo para considerar, diante da posse de tão bela e querida máquina, colecionar (ainda que em parte) alguns dos jogos que me fizeram feliz em suas versões originais.
Apesar de no início poder brincar com eles todos novamente usando a tal de SD Mapper (outra gambiarra, esta recente. Não sei se é coisa de brasileiro mas também pouco importa!), uma espécie de MegaRAM moderninha, pensei que, tendo um FS-A1GT e um respeito imenso pela Konami, eu deveria pagar um tributo a esse universo que me trouxe apenas satisfações das mais puras e parti em busca das fontes dessa felicidade. Isso seria também uma espécie de complemento à sensação de "vitória pessoal" obtida com o FS-A1GT: computador original e software original (com todas as implicações disso), tal qual há tempo eu sempre quis. Não pode haver coisa melhor!
Consegui. Fui bem sucedido. Já tenho algumas peças em casa e consegui algumas outras... a simples visão delas me enche de orgulho e de uma sensação de ternura, aquela mesma que eu sentia quando trabalhava com meu Expert e jogada nele todos os piratões que hoje ostento em minha coleção, nas suas versões autênticas...
Pra mim tudo isso é muito importante pois está intimamente ligado a boas memórias. Tudo isso se tornou indissociável e ter essas coisas todas hoje, tanto tempo depois, é gratificante. Pra imensa maioria das pessoas, nada disso pode fazer sentido. Tudo bem... pra elas outras coisas podem fazer sentido e pra mim parecerem totalmente nonsense. Faz parte do jogo da vida! Agora, é curtir tudo isso pra sempre!
Notas:
(1) Meus pais jamais mediram esforços pra que eu tivesse acesso ao conhecimento. "Conhecimento ninguém vai tirar de você" dizia meu pai. E levo isso tão a sério até hoje que me esforço em passar essa idéia para meus filhos. Agradeço muito a eles por isso; não seria quem sou hoje se não tivesse adotado esse mantra tão precioso quanto desprezado nos dias atuais;
(2) Apesar de ter uma certa vontadezinha de ter mais uns dois ou três micros antigos (inclusive um Amiga 500), eu não tenho conhecimento em Eletrônica pra mantê-los funcionando (são todas máquinas com mais de 30 anos... é mandatório e indispensável que se tenha conhecimento para consertá-los). Além disso, não tenho espaço pra deixá-los prontos para uso ou mesmo guardados. Por fim, se apareço com mais um computador antigo em casa, minha esposa me chuta pra fora! Então, deixemos como está!
(3) Não tenho vergonha nenhuma de dizer que essa indignidade consistiu em trocar meu MSX2 por um drive externo de Amiga com ejeção elétrica de uma tal Applied Engineering, empresa que fazia majoritariamente tranqueiras para micros da linha Apple, principalmente para o Apple IIGS, máquina de ingrata memória pois me faz lembrar de pessoas que hoje me são absolutamente insuportáveis e intragáveis;
(4) O meu conceito pessoal de "mundo interior" vai muito além das descrições psicológicas clássicas ou do que o senso comum poderia dizer que é. Eu sempre penso que vou conseguir escrever a respeito, mas toda hora que tento, tudo foge e não sai nada que preste. Eu apenas sinto esses mundos... excogito-os ao máximo e, ao fazer isso, me sinto bem pois tudo à minha volta é "recriado", numa espécie de mergulho até aqueles tempos. Até o brilho do dia ou a luz da lua ficam diferentes. É louco, eu sei, mas não consigo explicar melhor do que isso e só sei que pra mim funciona muito bem. Evoluí e deixei pra trás muitas de minhas "esquisitices" e pré-conceitos, até por força da profissão e pela necessidade de viver bem em sociedade. Mas as coisas boas continuam comigo, intimamente.
(5) Apesar de 256 KB serem suficientes pra maioria dos jogos, ao menos um título de sucesso passou disso: o Metal Gear 2 da Konami, que tinha 512 KB (ou 4 Mbits). Não sei se a pirataria nacional teve chance de chegar nesse jogo e se, portanto, houve um MG2 versão MegaRAM ou não. Do mesmo modo, muito menos conhecidos dos brazucas, os jogos da Koei eram, em sua grande maioria, todos de 4 Mbits e ao menos um era de 8 Mbits (1 Megabyte de tamanho!). Esses da Koei só conheci uns dois em disquete (deste modo, também foram pirateados!).

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