quarta-feira, novembro 17, 2021

As portas ocultas das escolas religiosas (ou memórias escabrosas de moleque curioso)

Eu estudei a vida inteira em escolas religiosas: da primeira à quarta série (1982 a 1985), no Externato "Madre Cecília" e da quinta série até o terceiro colegial (1986 a 1992) no Liceu Salesiano "Nossa Senhora Auxiliadora". Ambas as escolas foram fundamentais na minha formação em todos os níveis e agradeço demais a Deus e a meus pais por não terem medido esforços para me manter em ambas (hoje, absolutamente inviáveis: sei que Ensino Fundamental no Liceu já passou dos 2 contos a mensalidade! Mais caro que muitos cursos em faculdade particular!). Eu sei o sacrifício que foi para eles e aproveitei muito bem a chance dada, traduzida no meu sucesso profissional atual.

Entretanto, uma coisa sempre me deixou muito cabreiro em ambas: as portas escondidas. Na verdade, não eram exatamente escondidas (do contrário, não as veríamos!), mas portas encontradas em lugares estranhos, como se não fosse para elas estarem lá. Talvez, noutros tempos, elas tenham servido para alguma coisa efetiva, mas - sei lá! - 40, 50 ou 60 anos depois elas se tornaram sinistras pelo fato de terem se tornado inúteis, e isso se via a julgar pelo modo como elas eram bloqueadas por bancos, armários e outros móveis, ou "transplantadas" para cantos de difícil acesso, provavelmente devido a reconfigurações do espaço físico ao longo das décadas.

Essas portas hoje não existem mais. No Liceu eu sei porque, na última vez em que lá estive (talvez em 2015), a reforma geral pela qual passou a escola eliminou-as (ou ao menos deixou escondidos os lugares aos quais elas davam acesso). No Madre Cecília eu não sei porque nunca mais voltei lá depois que passei para a quinta-série (ou seja, mais de 30 anos).

No Madre Cecília os lugares que me atormentavam eram o acesso à residência das irmãs pelo prédio principal, corredor longo e escuro. No pátio de recreio, um muro enorme (talvez muito menor do que a minha imaginação de criança enxergava) com uma escadinha lateral tomava toda sua extensão. Ao lado dessa escadinha, grudada a ela, outro prédio de sala de aulas (acho que eram salas de aula!) tinha uma espécie de porão ao qual se chegava descendo alguns degraus que davam pra uma porta com uma janelinha pequena. A porta vivia semi-aberta e emperrada e era uma diversão nossa, na hora do lanche, arriscar entrar naquele porão, imensamente macabro, comprido e cujo fundo escuro não víamos, baixo, atulhado de coisas que não era possível identificar. Era questão de dar dois ou três passos e sairmos em disparada por causa da sensação opressiva (diferente de claustrofóbica) que aquele local nos dava.

A tal escadinha anexa ao muro levava a um pátio menor que dava para a cozinha e ao refeitório (provavelmente das irmãs). Ao fundo dessa sala, um porta dava para outro corredor sempre escuro. Imagino que se conectava com os quartos delas e todo esse sistema residencial me causava péssima impressão,como se transpirasse proibição, transgressão e coisas ruins que ocorriam entre aqueles cantos dificilmente iluminados.

No Liceu a residência dos padres era separada do resto da escola. Era um prédio gradeado, com aparência luxuosa e, portanto, não chamou a minha atenção. Mas no fundo, depois que o prédio principal terminava, havia um depósito de tranqueirada que eram alguns mini-galpões como se fossem as casas abandonadas do Cococi. Para lá iam os transgressores fumar escondido seus cigarrinhos fazendo pose de James Dean (presenciei várias cenas dessas). Mas o pior não era isso. O corredor das sétimas e oitavas séries (o "L" do prédio principal que ia cair no Cococi) terminava numa meia-parede. Isso mesmo, uma meia-parede, que pegava apenas metade da largura do bloco. Por trás dessa meia-parede, num espaço de no máximo uns dois metros, a parede terminava de verdade e nela havia uma porta, também com uma janelinha. Olhando-se por ela, via-se uma sala minúscula cheia de tranqueiras indecifráveis e, na parede oposta, outra porta, também com janelinha, através da qual nada se enxergava. Daí surgem as questões perturbardoras que, vira e mexe, ainda me fazem pensar e me causam desconforto: por que essa "ante-sala" minúscula? Por que não diretamente a porta para um recinto cheio de tranqueira? Por que aquela meia-parede? Por que foi preciso separar um recinto mais pra trás por essa "ante-sala"? Por quê?

Na entrada principal do prédio do Liceu, que hoje é bonito, claro e de alvenaria, era uma escada daquelas antigas, que rangiam só com o olhar. Por ela se subia meio que vertiginosamente até o corredor das quartas-séries pra baixo, dispostas ao longo dum corredor de chão igualmente de madeira rangente em salas pequenas. Não me recordo do que havia nas extremidades desses corredores, mas certamente havia passagens estranhas para outros pontos da construção, inclusive para o setor do colegial, que ficava num lugar ainda mais esquisito, totalmente improvisado, ao que parecia.

Tendo vivido em ambientes assim por dez anos, estranho seria se até hoje eu não tivesse pesadelos com isso, ambientes antigos compridos, obscuros, decrépitos, com um luxo antigo morto, que se ligam entre si numa espécie de apartamento dentro de um prédio em idênticas condições. Às vezes é uma escola toda de madeira, na qual um pavimento abaixo do nível da rua apresentava uma escada escuríssima que descia sabe-se lá onde. Outra escola que povoa meus terrores noturnos possui um vão livre central amplíssimo, escadas com inclinação quase nula que levava a complexos de corredores. Alguma coisa no ar parecia sussurrar em meu ouvido para não adentrar nem esses corredores nem as salas ao longo deles e eu acabava por cair numa sala alta, no topo do prédio. A porta batia e começava a vir ao meu encontro uma dupla de caras vestidos de branco e máscaras que lhes cobriam toda a face. Era impossível escapar deles. Outra escola confundia-se com um cemitério, toda aberta e exposta a um céu amarelado com nuvens escuras do mesmo tom. Um silêncio total se fazia e eu ficava vagando por esse lugar nada a ver. Em todos os casos, é fatal eu acordar com o coração batendo na boca depois de dar um pulo na cama. Putz, que chato, né?

Olhe aí alguns exemplos exatos das coisas que me aparecem (fonte: um cara qualquer aí que tirou foto disso - que também não sei onde é, só sei que é Campinas...). UPDATE (28/11/2021): refletindo, essas escadas me parecem lá do antro de playboyzada que é aquele campus central da PUCCAMP... mas não garanto!