quarta-feira, novembro 03, 2021

O problema dos filmes nacionais

Certa vez, uma "persona 'extremamente' non grata" do mundo das HQs (quem conhece sabe de quem estou falando) disse num podcast que o problema de certos desenhistas que trabalharam com turma da mônica era o vício de traço que pegavam, a ponto de não conseguirem desenhar mais nada que não se parecesse com a núvem dos quadrinhos da turma da mônica, com as pedras dos quadrinhos da turma da mônica, com as casas dos quadrinhos da turma da mônica... enfim, talvez até não conseguissem mais desenhar pessoas que não se assemelhassem àqueles horríveis personagens dessa turma da mônica. Sei lá se isso tem algum fundo de verdade, se é passível de ocorrer... não sei (e, pra dizer a verdade, não dou a mínima!); entretanto, esse é um bom exemplo para ilustrar o que acontece com filme tupiniquim.

Como se sabe, aquela emissora brazuca é a única cujo poderio econômico é insuperável e infinito, dadas as suas relações espúrias com o governo (não importa qual), iniciadas na ditadura (algo fartamente documentado. Procuraí!). Suas soap operas e programas (em especial nos últimos 20 anos) têm jogado no lixo as capacidades cognitiva e de reflexão e o senso crítico de gerações seguidas de pessoas. Outras emissoras até tentam, mas não chegam sequer perto (busque pelos livros de um tal Roméro da Costa Machado - um cara que eu duvido muito que exista, ao menos com esse nome). Deste modo, tudo que é produção artística televisionada pega um ranço, um "jeito de ser", uns cacoetes bairristas idênticos ao que é exibido nessa emissora, por mais independente que se queira fazer parecer.

Por outras palavras, não importa quantos filmes sejam feitos: todos eles parecerão novelões daquela emissora: os atores são os mesmos, as situações são as mesmas, os lugares são os mesmos, as piadas são as mesmas... um horror! Puro horror! Claro que estou falando daquelas coisas feitas para o mainstream. Não estamos falando de troço kitsch, megacult, cabeçóide, "que induz à reflexão"... essas películas queimadas por gente de nicho para gente de nicho, um nicho absurdamente pequeno, acessível apenas a "iniciados" e que integra esses circuitos ultrarrestritos alternativetes nos quais eles ganham prêmios que só interessam a eles mesmos e a mais ninguém. Nesse caso particular, seja um "filme" feito na Suécia ou no Sudão, sempre haverá um alternativete que o ache lindo e cheio de significados ocultos baseados em Sartre ou outro desses caras aí. Não conta.

Filme brazuca legal mesmo eram aqueles produzidos na Boca do Lixo de São Paulo e que tiveram em Sady Baby seu máximo expoente. É coisa feia, bagaceira, mal filmada, sem noção, sem pé nem cabeça, zoada, despretensiosa e sem a menor preocupação com roteiro, argumento, diálogos ou figurino. Mas era autêntica, verdadeira e que sempre remetia a tudo aquilo que sempre foi a preocupação permanente do brasileiro médio (não vou dizer o que é). Uma pena que nada disso tenha se preservado (ou se se preservou, foi apenas nas coleções privadas de VHS de malucos que não as mostram pra ninguém, a não ser para outros malucos convenientemente identificados. No final, virou coisa de nicho também).