Quem assistiu ao belo (porém inútil)(*) documentário Beyond the citizen Kane (1993) viu, logo no comecinho, o tal de washinton oliveto(**) dizer que o "brasil é um país de terceiro mundo com exigências publicitárias totais de primeiro mundo". Isso me marcou muito e passei a enxergar esse paradoxo em muitos aspectos da sociedade brazuca: nos serviços oferecidos, no comércio, na tecnologia e mesmo nas ciências & educação (neste último caso, isso é altamente desejável). Não vou me estender filosófica/sociologicamente a respeito porque não ando com saco pra tanto.
O fato é que o tal de PIX, um sistema de pagamento cuja segurança é altamente questionável (mas do qual me tornei dependente depois que comecei a usar), no Brasil, sofre do mesmo mal e é totalmente contraproducente fora do eixo Rio-São Paulo. Já cansei de ficar em filas de supermercado/farmácia em que o(a) fulano(a) na minha frente demorou pra pagar com PIX tempo suficiente pra fazer a mesma operação passando o cartão de débito/crédito umas 10 vezes: uma hora é o app do banco que não valida a senha (quando não trava ou fecha abruptamente); outra hora é a Vivo/Claro/Oi/Tim/PQP que sai de área e perde-se a comunicação por dados; ainda outra hora é a Internet do estabelecimento que reseta a conexão e o processo é interrompido no meio... e ainda tem o caso do(a) sujeito(a) que simplesmente se embanana todo(a) na hora de usar o troço, transformando uma operação de dois minutos num calvário cinco vezes maior! Como eu sei tudo isso? De ficar ouvindo o(a) cliente nervoso(a) reclamar com o(a) caixa, como se ele(a) tivesse alguma culpa.
Numa Avenida Paulista, numa Vila Madalena, num Leblon, numa Barra da Tijuca, numa Vila Olímpia, numa Avanhandava, numa Berrini, numa Bela Cintra ou outros lugares semelhantes em que 5G já está a todo vapor (ou quase), em que Internet se pega até debaixo das pontes ou no fundo dos bueiros, onde você não consegue nem olhar o céu de tantas torres com células de comunicação móvel cobrindo os pontos mais altos das metrópoles e onde todo mundo anda de iCrap 13, eu até aceito que a incidência desses problemas seja menor, embora certamente continuem a afligir as domésticas que vão comprar pras dondocas no Pão-de-Açúcar ou os faria losers que vão todo dia rangar a 70 conto (mínimo, individual) nos Eatalys da vida.
Agora, nesses rincões esquecidos de meu Deus, com gente usando celular sensunga de 2015 rodando Android 8, com interrupções de fornecimento de energia elétrica acontecendo do nada, com aqueles caixas rodando sistemas feitos por startups cheias de guris formados em "computação" nessas unixixicas EAD que existem em cada esquina... putz, não rola mesmo! É pedir pra passar nervoso!
Eu uso PIX sim, mas em casa, com a minha Internet, pra pagar coisas que não requeiram rapidez nem agilidade: nesses casos, o bom e velho cartão/dinheiro ainda é a melhor opção.
Notas
(*) Sim, infelizmente é um documentário inútil (ou que se tornou inútil) porque, passados quase 30 anos de seu lançamento, tudo continua igual!
(**) Um desses donos de "agência" de publicidade aí.