sexta-feira, junho 24, 2022

Oscar Wilde e seu livro

O grande problema de Oscar Wilde é que ele era mais conhecido por sua personalidade extravagante do que pelo que escrevia (aliás, resultado direto dessa extravagância com laivos de um narcisismo pra lá de escroto, bem à moda inglesa mesmo). Essa idéia aparece até mesmo no breve précis (pra usar uma palavra aparece no seu "O retrato de Dorian Gray") a seu respeito no volume único de suas obras completas lançado pela ed. Nova Aguilar, muito embora o autor queira depois meio que compensar isso carregando nos adjetivos laudatórios. (*)

Outro grande problema é que ele se deixou arrastar até a fatalidade por sua paixão por Alfred Douglas. Uma paixão desenfreada sempre leva o ser humano à ruína e, no caso dele, doido por um molequinho birrento, mimado, catarrento, cheio de vaidades e egoísta até à doença, isso foi, literalmente, a morte. Pior de tudo que mesmo depois de sua estada na cadeia por gross indecencies (naquele tempo, homossexualismo era isso lá na Inglaterra), ele ainda correu atrás do maluquinho histérico, numa prova de que, quando se tem o dedo podre pra relacionamento, ele costuma ir bem fundo no rabicó pra mostrar como é possível se foder até os ossos!

Tirando seus contos, toda sua obra é entremeada daquelas idéias dandistas, estéticas e inúteis sobre "arte pela arte" e todo aquele blablablá de um flamboyant como ele. Às vezes eu penso no Freddie Mercury e concluo que ele era um Oscar Wilde moderno. Reflita a respeito.

"O retrato de Dorian Gray" é um livro pequeno, o único que ele escreveu (o resto foram obras de todos os estilos: contos, peças de teatro - no que ele destacou e foi o que o levou à fama que não durou muito tempo, ensaios, poesia, etc.). Uma história interessante que se torna chatíssima com todas aquelas teorias sobre "arte pela arte", "culto à beleza" e baboseiras semelhantes que ele enfia no meio dos diálogos. Fica claro (IMHO) que Lord Henry Wotton é o próprio Wilde, tentando catequizar o jovem Dorian Gray (por sua vez, Lord Alfred Douglas) a aderir a suas idéias loucas que hoje soam apenas bobas e inócuas, mas que, nos tempos vitorianos, deviam ser verdadeiramente subversivas!

No tal resumo acima mencionado, comenta-se que o tema d'"O retrato de Dorian Gray" não é novo e que já teria sido batido por outros escritores. Cita-se, por exemplo, "O retrato oval" de Edgan Allan Poe com uma temática parecida, muito embora este seja uma história curta. Li esse conto e o achei sensacional, muito melhor do que "O retrato de Dorian Gray" porque é mais denso, mais sinistro e mais objetivo. N'"O retrato de Dorian Gray", o que há de sinistro na história fica diluído pelas "teorias estéticas" de Wilde distribuídas até à náusea por todo o livro. Eu sei que Wilde tinha um talento que consistia numa "brilhante conversação", cheia de wit (googleie aí que você acha!) e chispas "geniais", mas a repetição cansa bem rápido. Devia ser um porre ouvi-lo depois de dois ou três encontros em sociedade, e essa capacidade ele levava para seus textos, na mesma proporção em que Coelho Neto ou Júlio Ribeiro queriam mostrar como eram eruditos e conheciam 100 vezes mais palavras da língua portuguesa do que seus contemporâneos.

Entretanto, nada disso é o pior, por incrível que possa parecer. Explico: eu até hoje não consegui entender (e ninguém nunca conseguiu me explicar a contento) porque diabos todos os "entendidos" dizem ser À rebours o livro que enfeitiçou Dorian Gray e cuja descrição de alguns supostos capítulos toma uma quantidade considerável de páginas d'"O retrato de Dorian Gray".

À rebours ("Às avessas") é um livro escrito por Joris-Karl Huysmans (pseudônimo de Charles-Marie-Georges Huysmans, autor francês com ascendência holandesa), considerado um dos expoentes da escola literária decadentista, uma espécie (de novo IMHO, pois não sou formado em Letras e nem especialista na área) de realismo deformado. Em linhas gerais, o livro trata única e exclusivamente de Des Esseintes, último representante de uma linhagem de ricaços que, entediado com a mediocridade de tudo e de todos, gasta um tempão da sua vida pondo em prática as várias loucuras que sua mente doentia gestava. Isso é a única coisa mais próxima da minha percepção do livro que concorda com o que Wilde escreve:

"Era uma novela sem enredo, com uma só personagem, na realidade, um simples estudo psicológico de um jovem parisiense, que passava a vida tentando concretizar, no século XIX, todas as paixões e maneiras de pensar de todos outros séculos, com exceção do seu, e resumir em si mesmo os estados de ânimo que experimentara, amando, pela sua própria irrealidade, aquelas renúncias que os homens chamam tolamente de virtude, bem como aquelas rebeliões naturais que os homens sábios ainda chamam de pecado."

Juro que tentei enxergar a tentativa de concretização dessas "paixões e maneiras de pensar de todos os outros séculos" mas não consegui. Só vi um cara bem doente cheio de manias exacerbadas de modo extremamente doentio, talvez pela sua condição enfermiça permanente. Não vi nada de consciente na busca pela saciedade dessas "paixões"!

Continua Wilde:

"Havia metáforas tão monstruosas e de cores tão sutis, que lembravam orquídeas. A vida dos sentidos ali estava descrita em termos de filosofia mística. Em alguns momentos, era difícil perceber se o que se estava lendo eram os êxtases espirituais de algum santo medieval ou as confissões mórbidas de um pecador moderno. Era um livro cheio de veneno. Um odor pesado de incenso parecia aderir-se às suas páginas e transtornar o cérebro."

Bem, eu não li o livro no original, até porque o meu francês é insuficiente pra isso. É sabido que traduções, por mais perfeitas que sejam, matam muito das intenções do autor. A própria língua é uma arma na hora de conquistar um leitor e, usada com maestria, torna impossível de passar a falantes de outro idioma a precisão das idéias que se desejava passar. No sentido inverso, por exemplo, jamais se conseguirá transmitir a grandiloqüência e a mordacidade dum Eça de Queirós em qualquer outra língua, principalmente as de origem germânica...

Enfim, devaneios à parte, o fato é que não encontrei nada disso numa primeira leitura de À rebours que fiz, depois de comprado este livro pra ver se era ele mesmo a que Wilde se referia. Pode ser que me falte um arcabouço literário e cultural pra cotejar a época em que ele foi escrito e no idioma de origem e o contexto atual, tão diluído, tão pouco denso e interessante. A mim, sinceramente, não me pareceu nada demais!

Antes de passar para o que realmente me incomodou, sigamos essa linha de pensamentos sobre traduções. Talvez a versão para o português de À rebours que adquiri tenha intencionalmente ocultado esse linguajar. Pelo que pude avaliar, o decadentismo de fato abusava das particularidades do francês, o que devia dificultar em muito sua tradução para outras línguas, exigindo enorme esforço do responsável por esse trabalho. Outra hipótese é que eles tentem adaptar à realidade de um país a história, mas aí eu já acho isso desonestidade intelecutal: ainda que seja impossível passar ao leitor estrangeiro a idéia original, deve-se, ao menos, manter a essência do que está escrito no livro. No próprio "O retrato de Dorian Gray" isso acontece de modo irritante: no original, Basílio Hallward faz quase uma declaração homoafetiva a Dorian Gray, terrivelmente atenuada nas traduções brasileiras. Medinho de chocar a audiência? Com o quê, afinal? É importante saber que Hallward realmente amava Gray, não dum amor carnal como os pervertidos poderiam enxergar (os famosos "cidadãos de bem"!), mas dum amor puramente intelectual. Se havia intenção de que isso se desenvolvesse para relações carnais, aí não temos nada a ver com isso e o fato nem impacta na idéia central da história. Trazer isso como "foi devoção o que senti por você" é realmente tirar a essência do original ("I worshipped you", muito mais significativo do que simples "devoção").

Agora é que vem o problema real. Wilde prossegue com:

"O herói da extraordinária novela, que tanta influência exercera em sua vida, experimentara também aquelas curiosas fantasias. Conta, no capítulo VII, que, coroado de louros, com medo de que um raio pudesse atingi-lo, tinha-se sentado, como Tibério, num jardim em Capri, lendo os livros indecorosos de Elefantina, enquanto anões e pavões reais andavam, vaidosos, à sua volta, e o tocador de flauta arremedava o balanço do turíbulo; e, exatamente como Calígula, banqueteara-se com cavalariços de camisas verdes em seus estábulos, e jantara em uma manjedoura de marfim, junto a um cavalo enfeitado com uma testeira de pedras preciosas (...)"

Paro por aqui porque esse trecho é longo. O fato é que, puta merda, em nenhum momento eu li qualquer coisa que se parecesse sequer remotamente com isso no livro À rebours! Des Esseintes não fez nenhuma dessas coisas! Eu até peguei agora aqui o livro de novo e fui ver o tal capítulo VII e não tem porra nenhuma dessa descrição nele!

Então como é que fica? Não é possível que haja um descompasso tão grande entre o que está em "O retrato de Dorian Gray" e a citação a essa obra que, aliás, em nenhum lugar do livro, é confirmada como realmente sendo À rebours! Aí eu fiquei confuso, e muito!

Essa é uma das minhas grandes dúvidas literárias e, se você tiver uma resposta pra ela, por favor guarde-a pra você porque eu não quero saber, valeu?

Mais uma grande resenha feita de modo completamente desinteressado, para seu trabalho d'escola. Abrasss!

(*) NOTA: dizem que há farta literatura sobre vários aspectos de Oscar Wilde: biografias (diversas!), análises de suas obras e até mesmo do julgamento pelo qual esse passou. NADA disso existe em português, à exceção, parece, de uma biografia traduzida na década de 40. Uma pena!