segunda-feira, março 18, 2024

O estranho no ninho

Passei casualmente por uma foto dum povo com quem fiz minha graduação no perfil dum cara que conheço (veterano meu da turma de 1992), numa rede social. Me lembro bem de cada um (pois sempre fui muito observador, mesmo de pessoas), mas duvido que se lembrem de mim. E, na verdade, isso nem me importa. Como eu era de Campinas mesmo, ia e voltava pra casa todo dia depois das minhas atividades acadêmicas. Não ficando por lá senão o estritamente necessário, não criei amizade nenhuma com aqueles 99.9% da turma que, sendo de outras cidades, meio que adotava a Unicamp como casa e não saía de lá, ficando de manhã até tarde da noite, quando então retornavam às suas repúblicas e moradias, nas quais estendiam suas convivências com gente diferente sob todos os aspectos. Natural que não figurasse em festas, encontros ou outras atividades de interação social e, muito menos, nas fotos decorrentes.

Sempre fui da idéia de que amizades duradouras a gente as faz quando crianças, pois nesta época os relacionamentos ainda são puros ou muito pouco contaminados por convenções sociais, interesses ou outras necessidades além da simples convivência com quem tem os mesmos interesses. De fato, tenho exatos SEIS amigos feitos neste período da vida (até o segundo grau, o hoje antipaticíssimo "ensino médio"), e com cinco deles converso com freqüência, mesmo eles estando em lugares muito distantes ou mesmo em outros países. Essa galera da faculdade passou por minha vida como um relâmpago, nada marcando, nada trazendo de lembranças, nada acrescentando ou tirando. Foram totais estranhos com quem unicamente compartilhei salas de aula e disciplinas dentro das estritas normas da boa educação. Nem da minha festa de formatura participei, pois ela foi toda montada pra atender aos interesses dum grupinho que se formou junto comigo (turma de 1994), de modo que tudo rolou em Jundiaí (!!!!!!!!), local de origem desse grupo. As únicas coisas de que me lembro da solenidade ocorrida no IMECC foram que, ao final, tocou "Pull me Under", de que no meu convite, na seção "juramento", o texto do tal juramento começava com "não juro por coisa alguma" (aí fica difícil, né meu camaradinha?) e de que meu pai estava com a roupa que ele sempre usava em eventos formais: um conjunto cinza-claro. Saudades, paizão!

Hoje, o que tenho de amizade são esses seis amigos. O restante são meros conhecidos, aos quais dedico os mesmos ditames da boa educação protocolar da época da faculdade, permitindo-me no máximo uma escapadinha pra beber em companhia de um ou outro a quem me ligam as afinidades da área de atuação, pois sequer os interesses são os mesmos (e, francamente, é difícil encontrar quem os tenha iguais aos meus, mesmo dentre os seis amigos).

Em verdade, isso não me preocupa nem um pouco: tenho as minhas próprias ferramentas de "viver comigo mesmo" e faço uso delas todas as vezes em que preciso me reencontrar.

Note que em nenhum momento falei de família. São coisas completamente distintas! Amo a minha. Mas o encontro com nossos "eus" é uma experiência à parte! E são experiências assim que me impedem de cair na depressão e me dão ânimo frente às adversidades comuns do dia-a-dia.