terça-feira, outubro 29, 2024

Tudo depende do referencial (ou "carta aberta" a um "amigo")

Sei lá o porquê, mas me deu vontade de revisitar o pré-histórico blog dum cara que conheço por alto apenas, amigo realmente de um outro amigo de longas datas. Passados mais de 20 anos, o blog tá ali ainda, mas com a maioria dos links quebrados (ou direcionando para sites absolutamente nada a ver!), praticamente todas as imagens indisponíveis e caixa de comentários não abre mais. A única coisa que continua igual é a imensa lentidão no carregamento, apesar de estar hosteado no Blogger. O motivo eu não sei, mas o blog do sujeito é (era) tão mal diagramado e cheio de imagens que deve ser por isso que leva uma data pra se apresentar ao público.

Gozado como os problemas de uns são o sonho dos outros, né? O cara tá na minha faixa de idade. Começou com esse blog quando devia ter uns 20 anos ou pouca coisa menos. Dizia, por exemplo, que o carro tava sujo. Que tava precisando de emprego... mas foi fazer turismo no sul. Precisava de grana, mas saía pra tudo que é balada classe média. Grana faltava-lhe, mas tinha desejos de levar namorada a restaurante chique. Vivia na casa de ricaços (incluindo esse meu amigo por meio do qual o conheci). Reclamava que não tinha "os pila", mas se dedicava a passatempos de branco classe-média média/média-alta e indo botecar pelo Cambuí (o bairro campineiro no qual se concentra a maior quantidade de esnobes escrotos por centímetro quadrado da cidade).

Amigo, eu fui ter o primeiro carro com quase 30 anos (um Fiat Tipo 1.6 1995 esteticamente passável, mas todo ferrado em mecânica/elétrica - fiz a alegria duns par de mecânicos/eletricistas de Campinas por anos, com o pouco que ganhava das minhas bolsas de pós-graduação!). Minha habilitação quem pagou fui eu (não a ganhei de presente de 18 anos porque aos 18 anos eu era um fudido). Antes disso, sair era só de busão ou de carona, com uma grana tão limitada que não dava pra nada. Galleria? Passeio de rico. Café Com Cu (que era como eu carinhosamente chamava o Café Cancún)? Só passava na porta (sério, jamais entrei). Enquanto Cambuí pra ti era padrão, pra mim era 13 de Maio e olhe lá! Palicari eu fui porque foi lá a festa de formatura da oitava série da minha irmã, paga sabe-se lá com que sacrifício sobre-humano do meu pai. O único gibi que consegui comprar foi a série Gothic do Batman. Ah, ganhei também desse amigo ricaço uns volumes esparsos dum gibi-cabeça, que nunca vingou no Brasil. Se fosse pra comprar, não teria condições. Aliás, ainda bem que nunca fui pra essas bandas de gibi, RPG e similares: neil gayman eu acho um judeu chato pra caralho e pretensioso até cair o cu da bunda (como todos eles, aliás). Quadrinho-cabeça me desperta sentimentos suicidas. Nunca me senti bem nas partidas de RPG jogadas nas mansões dos caras pra onde eu era arrastado.

Enquanto tu reclamava de como a mulherada era foda (entre uma namoriscada e outra) nos bares do Cambuí, eu me conformava no meu quarto com o fato de que jamais eu teria uma, pois nenhuma me olhava e nem eu tinha o suficiente tato para abordá-las, meio esquisito e nerdolhão que eu era. Além disso, duro. Pegar mulher como? Já dizia Górki que "é preciso ter dinheiro pra se andar com mulheres" e o fato é que até hoje assim é. Aliás, tu sabia que fui tremendamente humilhado por uma guria que nosso amigo ricaço em comum arrastou certa vez pra casa dele? Pois é! Ele arrastou duas: uma ele pegou. A outra eu fiquei tentando achar papo pra ver se rolava alguma coisa mas a cara de nojo dela me intimidava e acabou que deu em nada. Mais tarde, tendo eu mandado um e-mail pra ela (que nosso amigo em comum facilitou) dizendo que tinha gostado de conhecê-la, recebi em resposta uma espinafrada, um enxovalho tão acachapante que, não fossem meus mecanismos psicológicos autoprotetivos, teria ficado terrivelmente traumatizado com o gênero feminino! Hoje, me limito a desejar surdamente que, como todos os meus desafetos, essa zefa esteja se fodendo muito na vida (no mínimo, que esteja à base de Rivotril - feio pensar assim né? Mas foda-se! A porta da rua é a serventia da casa!).

Lembra quanto tu pegou uma Cybershot Sony, daquelas de 5MP, toda afrescalhada, recém lançada? Era um símbolo, tipo um Motorola Startac, saca? Então, meu amigo... fui ter câmera digital sei lá quanto tempo depois, e foi uma daquelas Polaroid bem pebinhas e elementares. Pra dizer a verdade, nunca dei muita bola pra câmeras digitais, fotografia e essas porras todas. E hoje, câmera digital só mesmo fotógrafo profissional usa, se bem que eu acho que fotógrafo profissional devia usar as tradicionais mesmo, que é aí que eles mostram se são profissionais mesmo ou se são apenas uns mequetrefes que só sabem ajustar parâmetro e depois a câmera digital faz tudo sozinha. Mas aí estou desviando do assunto...

Computador fui conseguir ter só quando comecei o mestrado, pagando em 12 vezes um PC simprão naquela loja da Barão de Jaguara cujo nome me esqueci. Aí a burrice foi minha mesmo porque, no afã de sempre querer estar na crista da onda computacional, gastei muito das minhas bolsas de mestrado e doutorado em placas-mãe, de vídeo, de som, de tudo, pra tentar parecer sofisticado tecnologicamente. Me arrependo amargamente de não ter guardado e investido essa grana em algo melhor. Então, enquanto tu jogava em rede com esse nosso amigo ricaço em comum (e outros ricaços de sua roda), eu ainda tava no MSX e no Amiga (que me serviram muito bem, não há dúvida!). Não que isso seja um demérito; afinal, o MSX moldou minha vida profissional e hoje tenho o mais belo e cobiçado exemplar do Brasil e do mundo, graças a tudo que me tornei depois que conheci minha esposa.

(Falando em esposa, é preciso que se diga que minha vida pode ser dividida em duas partes: antes e depois dela. Antes era tudo isso aí que te disse, meu amigo! E depois... bem, o depois ainda está em construção e ainda irá longe. Muito do que sempre quis conquistei com o apoio e o incentivo dela. Impressionante como a mulher CERTA em nossa vida nos faz bem!)

Então é isso, meu amigo! Sei lá como tu tá hoje (e, na verdade, pouco me importa saber, todavia desejo-lhe sucesso!), mas eu precisava escrever algo sobre esses referenciais que temos, e como tem gente que sempre quer ter aquilo de que outros reclamam!