terça-feira, setembro 24, 2024

Coisas que me irritam (VI): mania de brasileiro de se meter com rock

Qualquer pessoa minimamente educada musicalmente sabe que "Brasil" e "rock" não cabem na mesma frase. Eu não sou crítico de música e nem especialista no assunto. Falo apenas da minha visão de ouvinte ávido de músicas boas, que me foram apresentadas desde a infância: primeiro por meu pai e seus discos de 78 rpm com tudo que é tipo de música clássica; depois, o rock autêntico, mas não o rock daquela putaiada antiga, dos primórdios do gênero - anos 50 e 60 -, mas aquele rock mais consolidado e consistente dos anos 70 e 80, de origens britânica e estadunidense, canadense... enfim, de onde houvesse uma (ex-)colônia britânica... tudo coisa que chegou aqui e que - ao contrário do que os tupiniquins tropicálio-ufano-nacionalistas dizem - não foi "assimilado como cultura gringa enxertada à colônia", mas se incorporou como opção a quem não gostava, em absoluto, do que era produzido aqui.

Quem se meteu com música clássica, se mandou do país. Quem insistiu em ficar aqui, só fez coisa ruim. Do mesmo modo, quem se meteu com rock, se mandou do país. Quem insistiu em ficar aqui, só fez coisa ruim. Simples desse jeito. Há brasileiros com sensibilidade para rock e clássico? Surpreendentemente há, mas essa própria sensibilidade lhes gritou que não havia como se desenvolver nessas searas na tropicália. Não dá pra chamar de rock as avacalhações de tantas supostas bandas que existiram/existem nessa terra quente e abafada. O maconheiro? O escrachado? Bah, pare! Tudo porcaria!

Teve um site no Blogspot chamado Tudo Provisório que nem no Wayback Machine você encontra mais os rastros, se é que um dia se preocuparam em salvar esse blog bem legal. Nele, um cara que manjava bem de música e tinha uma visão mais universal da coisa demonstrava por A+B porque música no Brasil sempre foi um troço crítico. Infelizmente, como também já foi demonstrado por A+B, o brasileiro médio, passional, latino, irritado, sempre com problema de aceitação e autoestima, jamais reage bem a qualquer crítica feita aos seus ídolos de pé de barro e a avalanche de comentários realmente destrutivos e ameaçadores que ele recebia a cada postagem botando a nu a real natureza qualitativa de sertanojo, pseudo-"rock" BR e MPB deve ter sido determinante para que ele suprimisse o blog de modo a jamais se conseguir encontrar mais nada dele por aí. Uma pena. Era uma leitura coerente e uma compreensão lúcida sobre o panorama musical dum país que tem um evento chamado "Rock'n'Rio" em que há tudo menos rock.

Aliás (e esse é o motivo dessa postagem), gostaria de sugerir que se parasse de falar em Rock'n'Rio. Quanto menos a gente fala sobre uma coisa, mais rápido ela some. Quem é dono desse troço tá cagando e andando pra cultura e a decadência exponencial desse "evento" faz com que se admire quem ainda gasta tempo indo em algo que virou, na mais otimista das hipóteses, simplesmente pop. E se ainda fosse pop bom, seria bacana. Mas o negócio virou palco de sertanojos, esquisitos, caras de turbante e outras figuras exóticas da terra de bananas.

O troço pode continuar existindo? Claro! E deve! Precisa haver eventos assim pois deve haver espaço pra todo mundo e o "empresário" que gerencia essa engronha tem que ganhar o dinheirinho pra trocar seu Aston-Martin uma vez por semestre. O que não pode é continuar atribuindo uma aura de "rock" a um encontro em que rock passa longe. Afinal, mais uma vez, Brasil e rock não cabem juntos numa mesma frase (elogiosa). Sei lá, chamem de Mato'n'Rio, Agro'n'Rio, Emo'n'Rio, mas não maculem o rock que tanto nos faz feliz!