quinta-feira, julho 25, 2024

Coisas que me irritam (III): a falta de pontualidade

Assim como o intragável e insuportável capiau Liêvin é o alter-ego de Tolstói no seu correto (porém enfadonho) Ana Karenina, é igualmente óbvio que Lord Henry Wotton é Oscar Wilde transposto para seu insosso "O retrato de Dorian Gray": um cara mais velho, casado com uma mulher, mas tendo um evidente desejo (talvez nem necessariamente sexual) por seu jovem amigo Dorian, a quem pretendia seduzir (de novo: talvez nem necessariamente em termos sexuais) com uma brilhante conversação carregada de cultura, sensualidade e hedonismo. A diferença é que enquanto Wotton parecia ser rico, Wilde era só um pobretão que se ralou de trabalhar pra tentar manter um padrão de vida totalmente incompatível com o mundo elegante em que pretendia se manter: a alta aristocracia londrina, composta por elementos de famílias que há séculos dominavam/possuíam praticamente tudo na cidade (prédios, casas, terrenos, etc.).

Wotton, no fundo, no fundo, era apenas um charlatão endinheirado e, a  meu ver, totalmente vazio, devotado apenas ao culto duma beleza puramente superficial, tão efêmera quanto inútil e empregando seu tempo apenas para saciar seus apetites a isso relacionados e a descobrir novas formas de elogiar o belo para atrair garotões incautos (e foi isso que, na vida real, levou Wilde à ruína, sempre é bom lembrar!). Dizia-se dele, no capítulo IV, página 59 (edição de 1981, Abril Cultural), que "atrasava-se sempre por princípio, e o seu princípio era que a pontualidade representava um roubo de tempo". Por aí já se vê o que são as pessoas adeptas da impontualidade...

Mas e quando isso não é um princípio, mas simples e puramente falta de organização pessoal, de responsabilidade, de senso de dever e respeito? Descendo do primeiro mundo à bananalândia, é verdadeiramente desanimador ter de tratar com uma impontualidade generalizada que se tornou uma das caraterísticas mais marcantes do povo brasileiro. Qualquer evento é marcado pra começar no mínimo meia hora depois do que reza o convite. Se uma reunião é estabelecida para iniciar às 14 horas, fatalmente ela vai começar às 14h30m pelo menos. Nesse meio tempo, vai chegando gente com a maior desfaçatez deste mundo; não se desculpam, não se justificam, sequer se envergonham: chegam sorrindo, sentam-se e aguardam os outros aparecerem com idêntico comportamento. Enquanto isso, o que chegou dez minutos antes se sente um verdadeiro imbecil. A única sorte nisso é que com as tecnologias de que dispomos atualmente podemos, in loco, já ir adiantando outros assuntos de nossa vida profissional. É, pelo menos, o que eu faço quando sou tomado desse sentimento de fazer papel de otário a cada reunião/compromisso em que faço questão de comparecer com antecedência à hora marcada.

Interessante é notar que esse comportamento repulsivo não conhece classe social ou nível intelectual. O brasileiro age como uma horda de Henries Wottons, se atrasando pra tudo (com imensamente raras exceções), seja pra uma reunião de negócios, seja pra um pagode no boteco, seja numa recepção de sociedade, seja numa formatura. Aprenda comigo: o horário estampado no convite de qualquer evento no Brasil é apenas uma referência. No mínimo dos mínimos, um indicativo de que você deverá chegar pelo menos meia hora depois se não quiser mofar esperando. Se no convite estiver escrito "o evento inicia pontualmente às 20 horas", é porque ele vai iniciar às 20h05m ou às 20h10m. Esse "pontualmente" significa menos atraso apenas.
Mesmo assim, sigo sendo pontual e me programando sempre pra chegar antecipadamente aos meus compromissos. Este valor (e outros) passo a meus filhos.

As raras vezes em que se respeitam os horários são, por incrível que pareça, nas missas: elas começam com menos de cinco minutos de atraso!

[UPDATE DE 14/08/2024]: ontem (13/08) estive num evento da catequese do meu guri mais novo. Horário de início que nos foi enviado: 20 horas. Começou às 20h11m, exatamente. E eram 20h15m e ainda havia gente chegando! Isso nem osso mais é. É o esqueleto inteiro!