quarta-feira, agosto 14, 2024

Coisas que me irritam (IV): as "bandas-tributo"

Todos sabemos que o que temos de cultura pop no Brasil é fruto da assimilação da cultura gringa a partir dos anos 60. Beatles, Stones, Pink Floyd e similares estão no DNA do brasileiro de certa condição financeira e contexto social ou (traduzindo) jovens de classe média pra cima dos grandes centros, algo em que eu mesmo me encaixo. Não estou me referindo e não me referirei jamais ao fã de MPB e de outras manifestações culturais genuinamente brasileiras porque, nesta seara, ao menos pra mim, quase nada se aproveita.

Aliás, eu nunca gostei do conceito de . (e já escrevi isso em outras oportunidades) - do inglês fan, abreviação de fanatic - é um doente mental, um alienado, alguém que põe sua paixão por algo acima de tudo e de todos, prejudicando-se a si próprio (ele nem sente isso!) e àqueles com quem convive. É por causa do fã, por não querer ser associado a esse tipo de gente, que eu não quis saber de Beatles (que até podem tocar legal, ter boas músicas e coisa e tal mas... putz... não, obrigado!), de Star Trek / Wars e outras coisas que fazem parte do quotidiano de quem hoje se encontra na casa dos 50 (pra pouco mais ou pouco menos). De outras bandas/filmes/seriados que não tiveram repercussão parecida (ou, por outra, não se alçaram a um status de deificação - um troço absurdo de tão ridículo!) me tornei um apreciador, alguém que deles gosta, conhece e eventualmente até acompanha com interesse, o que faz com que eu seja alguém muito sui generis nisso de cultura pop: gosto apenas de algumas músicas, de alguns poucos filmes e alguns poucos (sub)produtos deste fenômeno. Cago pra Star Trek/Wars, Indiana Jones, 007, Beatles e um monte de outras coisas atrás das quais o fã se mostra ameaçadoramente pra tomar conta e dizer o que é certo e o que é errado. Tô fora dessa demência coletiva!

Infelizmente, o Brasil sempre foi quintal dos EUA, um gigante eternamente adormecido, um espiador permanente, (do lado de fora, claro!) do que faz o primeiro mundo, clubinho seleto ao qual nunca nos foi permitida a filiação exatamente porque sempre fomos colônia de exploração e não de povoamento, porque nunca tivemos senso de nação, porque cada um aqui sempre quis livrar a própria cara em vez de pensar no coletivo. País de primeiro mundo nos dá atenção do mesmo modo que um ricaço condescendente permite que privemos momentaneamente de sua companhia, enquanto houver interesse daquele e nada mais. Tenho alguns amigos que, tristemente, se iludem por causa disso e, fodidos que são, até se acham ricos por supostamente fazerem parte de círculos que os sugam sem que percebam. O resultado é ainda mais triste: adquirem hábitos caros que não vão conseguir manter, posições político-econômicas que são prejudiciais às classes a que efetivamente pertencem e idéias totalmente contrárias à realidade em que se encontram... a figura é deprimente, risível e inspiradora de compaixão. Assim, Brasil é incensado por causa do futebol, não por causa dum prêmio Nobel; é aclamado pelo carnaval, não devido a uma idéia global que poderia melhorar o mundo; maravilha o Velho Continente por causa duma natureza que ele não tem e que vai indo cada vez mais para o buraco porque o próprio brasileiro não cuida dela (seja pela negligência atávica, seja pelo entreguismo puro e canalha).

Toda essa volta retórica foi pra embasar os comentários que farei sobre alguns fenômenos que andei notando ultimamente na cena cultural da bananalândia: as bandas-tributo. Recentemente, num grupo de WhatsApp de que faço parte (antigos colegas - não amigos! - de escola da minha época de segundo grau, hoje "ensino médio"), um cara estava todo eufórico porque ia assistir a um "concerto" lá nas imediações do estacionamento do shopping Iguatemi da "banda-tributo" Dire Straits (!!!!). Pelo que ele disse, conseguiram pescar um ou dois gringos de segunda categoria que tiveram passagens rápidas pela banda e, junto com outros caras (não sei se gringos ou não), fizeram uma apresentação com todos aqueles "sucessos" manjadíssimos ("Sultans of swing" feelings!) que tornaram a banda original famosa MAIS DE 40 ANOS ATRÁS!

Nada de Knopfler (Mark ou David). Nada de John Illsley. Nada de Pick Withers. Nada nem de Omar Hakim! Simplesmente uns zés-ninguém (sim, eu acho Phil Palmer um zé ninguém pois pegou a banda já no declínio), todos de idade avançada, cabelos brancos (nos que tinham cabelo!), barrigas salientes, sacudindo as muxibas, vestidos com umas roupinhas esquisitas e cantando o óbvio (eu vi as fotos e os vídeos que este amigo, deslumbrado, postava a cada 5 minutos no grupo). Nada de "Communiqué". Nada de "Where do you think you're going", nada de "Romeo and Juliet", nada de "On every street". Tudo coisa manjada e/ou coisa que eu nunca ouvi (e olhe que tenho os principais álbuns deles!). A mim, me cheirou um tremendo espetáculo caça-níqueis pra encher o rabo de grana de espertalhões antenados na onda de saudosismo que tomou conta de uma parcela da sociedade, carente de shows em que se tocasse boa música e que se recusa a ouvir o lixo que abunda por aí (e haja lixo!).

Errados estão? Não, ninguém está errado. Nem os espertalhões e nem quem gastou seu dinheirinho (nem tão suado assim: estamos falando de classe média/média alta aqui) se juntando à galera que hoje beira dos 50. O que me incomoda são esses músicos (repito - deve ter tido um ou outro da banda original nessa comédia) lembrando que Brasil existe quando todo o auge de que poderiam ter desfrutado já passou há pelo menos 30 anos. Esses caras estão todos ricos, bem de vida, sem mais nenhuma preocupação, uma vez que já fizeram seu pé de meia quando estavam lá com seus 30 e poucos anos. Hoje, aos mais de 70, por desfastio, lembram que shitholes da América Latina existem e vêm pra cá fazer "turismo de curiosidade" e ver como é a cara do aborígene destas cercanias, sob o discursinho defasado de que "amam o Brasil". É interessante notar que JAMAIS vieram pra cá no ápice de suas carreiras: nada mais precisa ser dito. Queen ensina como se faz!

Passado um tempo desse espetáculo deprimente (agora há pouco eu ainda estava revendo as fotos e os vídeos enviados no grupo de WhatsApp - putz, me deu um ruim na alma que nem quando sou obrigado a ouvir MPB!), agora aparece outra "banda-tributo" ao Supertramp. Não tô nem aí pro fato de que Roger Hodgson tenha dado sua bênção a esta nova empulhação; Supertramp, ao menos, esteve UMA vez aqui, em 1988 e conheço só algumas poucas manjadas deles (as de sempre: "It's raining again", "Logical song" e "Breakfast in America", além da subestimada, maravilhosa e já citada aqui "You make me love you", do Hodgson já em carreira solo). O fato é que, mais uma vez, uma "banda-tributo" escolhe a combalida América Lat(r)ina pra vir fazer novas vítimas, pois no Primeiro Mundo ninguém mais quer saber deles.

Quantas "bandas-tributos" ainda virão assombrar esses cantos esquecidos?

É osso isso!