Quem é do meio editorial brasileiro, principalmente do setor relacionado a histórias em quadrinhos, com certeza conheceu, lá pelo início dos anos 2000, um sujeito que atendia por diversos apelidos na Internet e que, metido a escritor (spoiler: fracassado), roteirista (spoiler: fracassado) e jornalista (spoiler: fracassado), aterrorizou toda a classe criticando feroz e destrambelhadamente os trabalhos de todos que não fossem os dele. Dos fóruns mais conhecidos até os sites mais obscuros que tratassem de quadrinhos, ficção científica e publicações do gênero ou mesmo assuntos de cultura pop em geral, lá estava ele, na seção de comentários, fazendo observações desagradáveis, ilações injustas ou ataques pessoais puros e simples, na dupla tentativa (spoiler: fracassada) de chamar a atenção para seus próprios trabalhos (spoiler: fraquíssimos) e, segundo suas idéias distorcidas e hipócritas, de despertar os autores nacionais para um suposto horizonte mais amplo que os tiraria de uma mediocridade e uma morte criativa às quais pareciam todos fadados, menos ele, que se arrogava detentor da verdade absoluta sobre como criar, produzir e comercializar personagens, quadrinhos e histórias de ficção (spoiler: falhou miseravelmente nisso tudo).
Bem, na verdade quem morreu foi ele mesmo, em 2012, pobre, infeliz, sem reconhecimento (spoiler: nunca mereceu nenhum), saturado da inveja de ver como todos em torno progrediam e ele não, raivoso por ver que suas próprias coisas não tomavam corpo e que seus gritos se perdiam ao vento apesar de tudo e totalmente dependente da esposa (era um desempregado crônico; por isso tinha tanto tempo pra gastar aporrinhando os outros na Internet). A repercussão de seu passamento foi praticamente nula no meio das artes e dos quadrinhos (profissionais ou independentes), havendo apenas um ou outro comentário de alívio por parte dos desafetos que conquistou ao longo de mais de dez anos de perseguições e um ou dois artigos (que nem estão mais disponíveis) escritos por sofredores da Síndrome de Estocolmo: apanharam do sujeito até não mais poder, mas, mesmo assim, despenderam tempo comentando sobre seu falecimento.
Os dois "livros" que escreveu, pela precariedade inerente ao seu estilo (ou falta dele), pelas temáticas pobres, infantilóides e pessimamente desenvolvidas e pelo extremo amadorismo/pedantismo com que se conceberam, foram ácidamente criticados até por quem o apoiava num certo fórum de quadrinhos muito conhecido. Não deslancharam e padeceram de todos os problema que ele tanto criticou nos outros; hoje, quedam esquecidos apenas nas prateleiras das casas dos poucos desajustados que riam dele (e não com ele). Seu trabalho (se é que se pode dar esse nome ao que produziu em vida) morreu junto com a pessoa e, como alguém disse nesse mesmo fórum, já foi soterrado "pela avalanche de informações normais da Internet".
A única marca de sua passagem pelo mundo um pouco mais persistente foram alguns podcasts que ele gravou e que hoje estão no Youtube, encontrados depois de muita busca. Isso se um dia a própria plataforma não os deletar para limpar seus servidores. Nessas gravações, por mais de uma vez, pode-se ouvir declarações como eu tô fazendo minhas coisas. Se eu parar, eu acabo virando funcionário público, você tem que ser criativo, do contrário você fica que nem funcionário público, num canto, sem direção, você precisa dar um gás nos seus projetos, ser dinâmico. Quer ser igual a funcionário público e ficar parado sem fazer nada?. As palavras não são exatas, mas as idéias são exatamente essas. Ou seja, o sujeitinho carregava a idéia (dentre tantas outras equivocadas que externou e que fizeram com que sua vida fosse um inferno na Terra, dentro daquilo que ele planejou pra si mesmo) de que servidor público era sinônimo de inação, de falta de iniciativa e eficiência, de procrastinação e ausência de inteligência para resolver problemas.
Infelizmente essa visão não é atual. No livro "O mulato", publicado em 1881 (143 anos atrás!), Aluísio de Azevedo já escrevia:
"Passava já das três da tarde. Os empregados públicos saíam da repartição, procurando a sombra, com o seu passo metódico e inalterável, o chapéu-de-sol dependurado do braço esquerdo, como de um cabide, o ar descansado e indiferente dos homens pagos por mês, que nunca se apressam, que nunca precisam de se apressar."
A perversa (porém fina) ironia de Azevedo contrasta violentamente com as frases do sujeito a respeito do qual iniciei este monólogo, e não é possível ignorar certa perfídia em suas palavras, pois em 1885 ele mesmo ingressou nessa categoria de "homens pagos por mês que nunca precisam de se apressar" ao se tornar cônsul, viajando o mundo todo com o dinheiro do contribuinte brasileiro. Entre a sutileza sardônica de um e a virulência babujada de outro, permeia um estranho ranço contra o serviço público federal, com quase um século e meio de diferença.
Por fim, temos também os tempos mais atuais, em que os quatro anos de desgoverno de uma direita tosca, burra, fanfarrona, carrancuda, fanaticamente crentelha e corrupta, jogaram uma nova luz negativa sobre o funcionalismo público federal, denegrindo-o e resumindo-o (segundo seus seguidores) a uma cambada de vadios que ganha bem e não faz nada o dia inteiro. O funcionalismo público sempre foi alvo do (mau) caráter ultraneoliberal dos bastardos que advogam a falácia do "estado mínimo" e sempre que ascendem ao poder, não medem esforços para minar a categoria. Que fique claro: condeno veementemente o gigantismo estatal, pois tão ruim é um quanto o outro. Passional como é pela sua origem latina, o brasileiro médio não consegue estabelecer um meio-termo e fica batendo cabeça entre esses extremos danosos para a sociedade, prejudicando-a em todos os prazos (curto, médio e longo).
Aliás, só fazendo entre parênteses aqui, é de fazer rir uma parte dessa súcia de fanáticos de extrema-direita. Conheço alguns e são todos, sem exceção, um bando de fodidos que não têm onde cair mortos. Alguns sequer casa possuem, não conseguem pagar aluguel, não conseguem formar uma família, mal conseguem subsistir à base de miojo, vivem fazendo cambalachos diários sem uma profissão bem definida, mas estão lá, defendendo o capital alheio, a meritocracia, o estado mínimo e, ateus que alguns são, defendem até a religião que justifica o status quo do meio. Já falei sobre isso aqui mas nunca é demais repetir: essa gente toda é cooptada pela classe imediatamente superior (a média-nariz-empinado, média-média ou mesmo média-alta, mas ainda média, e não rica!) e se sente útil por ser usada por ela, achando que um dia usufruirão dos mesmos "benefícios" suados que o dono do Compass comprado a prestações possui e que estressa até morrer de AVC para manter (spoiler: jamais irão).
Voltando à vaca fria, a conclusão a que se chega é que funcionário público sempre foi visto com reservas, apesar de sua importância para a estrutura social na qual se funda a República Federativa do Brasil.
Não vou escarafunchar os motivos que levam o povo a tal ranço. O que posso dizer é que no serviço público federal existem servidores comprometidos, apresentando alta eficiência e competência no desempenho de suas funções, principalmente nas universidades federais, centros de produção de conhecimento onde se luta cada vez mais contra um desmonte orquestrado para minar sua credibilidade junto à população. Desafortunadamente, o cenário não é perfeito e problemas existem, facilmente resolvidos que seriam se fosse permitido à polícia militar/civil agir livremente dentro do campus e encarcerar meliantes de diversos níveis que lá se acoitam, tornando-se impunes. Isso sem falar nos "estudantes profissionais", nos cavadores de bolsas, nos doutrinadores (sim, eles existem) e diversos outros patifes só existentes no ethos brazuca e que levam o ambiente universitário a essa degradação sobre a qual relincha a vadiada de extrema-direita, ampliando despautérios até o absurdo, distorcendo fatos e finalmente generalizando-os até se converterem em discursos prontos, opiniões definitivas e disseminação de informações falsas por parte de quem jamais o vivenciou (por falta de competência, principalmente).
Executo minhas tarefas estritamente dentro do que se espera de um servidor pago pela nação e, como eu, há um imenso contingente de funcionários cientes de sua importância e compromisso junto à sociedade, trabalhando arduamente para fazê-la progredir. A generalização inconseqüente e imbecil é a arma mais fácil (e medíocre) que se usa quando o desejo de uma parte podre da população é desacreditar a categoria e abrir espaço para justificativas de privatizações e outras besteiras. Como exemplo, uma das maiores tentativas diretas de acabar com a universidade pública foi o funesto Future-se (me recuso a linkar isso aqui), rechaçado com tanta veemência que foi vergonhosamente abandonado pra nunca mais sequer ser mencionado.
Então, amiguinho revoltadinho com o servidor/serviço público, não faça generalizações burras (o que é um pleonasmo vicioso: generalizações são boas apenas na Matemática, como costumo sempre dizer!). Não seja brasileirinho, que faz gambiarra escondidinha e depois mete o pau em que a faz escancaradamente. Procure conhecer muito bem a realidade de uma situação antes de sair por aí falando besteira e não queira julgar o todo pela parte. É ÓBVIO que há servidores incompetentes, corruptos, imbecis e presta-pra-nada, assim como os há na iniciativa privada. Em ambos os casos, todos são demitidos; a diferença está na velocidade com que isso ocorre... mas ocorre!