sábado, julho 18, 2026

A importância de ser flexível

Quem me conhece há muito tempo sabe que sempre fui avesso a futebol, cerveja e frivolidades. Entretanto, isso era quando eu era moleque, tendo avançado esse comportamento até o início da juventude, uma época cheia de ideais que você julga que nortearão sua vida, aos quais você jura ser leais e que o farão triunfar lindamente na vida profissional e pessoal.
Ledo engano!
O ser humano é essencialmente mutável, já dizia Júlio Ribeiro em sua "A Carne"; e o passar dos anos, do tempo de casado, de trabalho e de vida dos filhos mostrou que há que se evoluir, há que se estar antenado às modernidades do mundo e aberto a novas possibilidades de diálogo/visões de mundo.
Numa certa postagem muito polêmica envolvendo alguém que conheço, foi dito: "(...) o nerd dificilmente percebe é que ele frequentemente *não* é o mais inteligente. O mais inteligente não está tirando as melhores notas, ele está fazendo amigos. Ele está se integrando à grande irmandade masculina que governa o planeta."
Creio que é por aí. Durante esse tempo, cultivei muito mais o hábito de socializar, desde que com as pessoas certas. Isso trouxe benefícios para ambos os lados, dos quais tiro frutos até hoje. Ninguém é uma ilha. Nós não somos predestinados. Nós não somos autossuficientes. A convivência é essencial e solidão total não apenas é perigosa para a integridade física como ainda pior para o psicológico.
Uma maneira que eu particularmente encontrei de ficar bem com a maioria das pessoas pode ser resumida nesta excelente tira do cartunista Will Leite, que foi publicada no bostabook:

Tirinha bem bacana essa! Como comentei na postagem do merdabook, saber um pouco desses assuntos já está de ótimo tamanho! Interstellar? Buarque? Final de futebol? Sifuder, bicho!...

A intenção é evidente: sabendo-se superficialmente assuntos de interesse geral, ao mesmo tempo que não passamos por completos alienados (o que assusta a maioria das pessoas comuns), é puramente uma questão de borboletear sobre eles, como já dizia Henry Wotton n'"O retrato de Dorian Gray". Por outras palavras, sabendo-se um mínimo sobre a existência de um certo tema, um pouco de talento apenas é exigido pra que demonstremos (ou finjamos!) interesse e, assim, consigamos manter uma conversa por até horas a fio. Nem é necessário conhecer a fundo a matéria. Captamos a simpatia alheia com esse traço comum ao mesmo tempo em que não nos fatigamos em dissertar sobre coisas que nada têm a ver conosco ou que realmente nos encham o saco. Reflita a respeito e, qualquer dúvida, não me escreva! (até porque você nem permissão pra isso tem!) 
O mundo tem ficado cada vez mais louco. Não são poucas as pessoas que estão usando o YouTube pra desabafar seus problemas pessoais, frustrações e tristezas nas seções de comentários dos vídeos, se aconselhando de todos os modos com a IA (inclusive financeiramente ou sobre saúde) e caindo cada vez mais nos golpes do amor. Manter uma rede de apoio sólida, fundamentada em valores, colaboração mútua e portas sempre abertas para o outro é a melhor maneira de não pirar. No mínimo, nos mantemos em bolhas de sanidade que podem durar anos.
Amizades, infelizmente, vêm e vão. Algumas conseguimos manter por perto, apesar da distância; outras, entretanto, desaparecem sem deixar vestígio, causando maior ou menor tristeza por aquilo que se foi e que aquecia nosso coração noutros tempos. Como disse, devemos nos reinventar e acordar para novas realidades, deixando certas lembranças apenas como espasmos melancólicos de saudades de cenas passadas de nossas vidas.
Pode parecer clichê ou lugar comum, mas são ciclos que se encerram naturalmente, sem que haja discussões, brigas ou términos traumáticos: simplesmente a(s) pessoa(s) percebeu(perceberam) que suas existências poderiam ser tocadas sem que você fizesse parte delas. É triste? Às vezes bastante... mas conosco também acontece a mesma coisa, então é tocar pra frente!